DRAGON BLUES


22/02/2008


PRÁ COMEÇAR

Se você não tem interesse por histórias em quadrinhos (HQ) nem continue a ler. Vá fazer qualquer outra coisa que ache mais útil (para você, é claro). Mas, se você gosta, arrisque-se. E, se está pensando em gostar, arrisque-se também.

Vanderlei Luxembrugo batendo boca com Emerson Leão é discussão feroz? Acha mesmo? Dá só uma olhadela nesta discussão aqui. É sobre poesia. Não é recente. Mas, os caras pegam pesado!

Alexei Bueno é um grande poeta? Poeta ele é, não há dúvida. Grande?... Alguns dizem que sim, outros que não.

E que diabos isto tem a ver com histórias em quadrinhos, você pergunta. Bom, a questão (simplificando) é que existem poesias e "poesias". Quer dizer, poesia não é uma criação que receba de imediato, no ato de sua execução, um certificado de "boa". Depende (por mais que os teóricos da matéria não gostem de admitir) do tempo. É o futuro que vai dizer, não só se é grande ou pequena, mas se é poesia.

E que diabos isto tem a ver com histórias em quadrinhos, você pergunta de novo (já meio irritado).

Bom, vamos lá: a questão é que (igual com a poesia) existem histórias em quadrinhos e "histórias em quadrinhos". O tempo mostrou que realmente algumas eram melhores que outras.

Já leu a "Balada do Mar Salgado" de Hugo Pratt? Foi publicada no Brasil, muitos anos atrás, pela LP&M (não sei se ainda está em catálogo, mas, é possível achá-la em algum sebo).

Só para dar uma idéia (prá você que é fanzoca de carteirinha de Frank Miller): sabe no "Cavaleiro das Trevas" quando lançam um míssil atômico sobre um paizeco  e o Super-Homem faz todo aquele malabarismo para impedir ã detonação das ogivas? Prestou atenção no nome do país? É "Corto Maltese". E este é o nome do personagem principal da "Balada do Mar Salgado"... Se o "mestre" Miller resolveu homenagear o velho Pratt, é porque alguma coisa deve ter aí, não? (Aliás, acho que Neil Gaiman faz uma referência também em algum lugar do Sandman... - preciso verificar isso).

 Mas, vou logo avisando: se você é fanzoca de Miller (e, de certo modo, da temática "heróica" dos quadrinhos americanos) a viagem não vai ser fácil. Primeiro, o livro é todo em preto-e-branco. Segundo, o personagem principal não controla/coordena todas as ações da história: nem tudo gira em torno dele, embora sem ele a história não poderia exisitr. Entendeu? È mais ou menos como a vida.

É claro que você não encontrará a densidade (HQ não é literatura) de um Joseph Conrad ("Lord Jim" e "O coração das trevas"), mas há aquele sabor de aventura na qual não se sabe muito bem qual será o final, mais ou menos como Robert L. Stevenson ("A ilha do tesouro"), Jack London ("Caninos brancos") e Herman Melville ("Moby Dick"). Mais ou menos como a vida.

Justamente por nunca aproximar o personagem Corto Maltese (pelo menos, nesta primeira aparição) do heroí cinematográfico infalível e de previsível final feliz, Pratt o torna humano. Afirmei, logo acima, que HQ não é literatura, mas se houve algum momento, apenas um que tenha sido, onde a distância diminuiu a ponto das duas poderem se divisar entre as brumas da arte, então, foi neste trabalho de Pratt.

Só isso.

Quer mais?

Vá falar com Pratt e com o Corto na balada do mar salgado. 

 

Categoria: HQ
Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 18h02
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A ESMOLA

Quando pensamos que nada mais pode nos surpreender no futebol...

 

O Campeonato Fluminense de 2008 é um excepcional exemplo de prostituição. Provavelmente um dos melhores de todos os tempos.

Já é muito bem sabido que o comércio do sexo nunca foi – nem nunca será - uma questão estritamente redutível à fraqueza moral de uma época, nação, sociedade ou indivíduo, pois é uma da maiores democracias de todos os tempos: épocas, nações, sociedades e indivíduos ricos e pobres já a experimentaram de ambos os lados da transação comercial.

Mas, há algo que permanece para além de uma simplificação erótica (o suposto oculto desejo por exercícios sexuais variados e/ou extensos por parte daquele que "vende" – não que, obviamente, este também não seja um componente da dialética) e de um reducionismo sociológico (a tão famosa "luta de classes" - não que, obviamente, este também não seja um componente da dialética): é o desejo irreprimível daquele que "compra".

Este irreprimível desejo acaba, então, impondo uma lógica explicação: o vendedor "concordou" com a venda. Este sarcasmo parece explicar tudo, mas, olhando bem, mostra apenas o comprador justificando – para si mesmo, mais que para o mundo - seu irreprimível desejo: o fim do círculo é sempre seu começo.

Assim, o fato de termos um pão duro e bolorento nas mãos, e que será muito bem aceito pelo faminto humano que vende seu corpo pelas esquinas, pois a fome que lhe carcome as entranhas o aproxima cada vez mais do temor da morte, não nos faz caridosos, apenas mostra como bem sabemos abusar das necessidades – quaisquer que sejam - dos outros para satisfazer as nossas próprias.

Os "pequenos" – do interior do Estado do Rio de Janeiro e da periferia da Grande Rio – estão com fome e por isso aceitam que os "grandes" – e esta palavra está se tornando cada vez mais irônica – façam os jogos, que não sejam de seu "mando", no Maracanã. Ou seja, além da tradicional troca de favores políticos entre os votantes e o presidente eleito da Federação, há a possibilidade dos "pequenos" obterem rendas melhores. Mas, é uma falsa "caridade": a história do futebol já mostrou suficientemente o valor do fator "campo". Assim, a médio prazo, a vantagem é toda dos "grandes", pois jogando sempre em seu "campo" as chances de título aumentam, ou, ao menos, não se corre o risco, como nos últimas edições, de ter um "pequeno" decidindo o título (coisa que os departamentos de publicidade das tevês detestam: time pequeno não tem torcida que dê audiência suficiente para justificar o alto preço cobrado dos anunciantes). Não há associação indevida: time/clube que ganha títulos consegue negociar melhores contratos de patrocínio.

Um humano com fome poderá, ou não, vender sua alma. Mas, mesmo que este humano esteja muito disposto à venda, não há justificativa suficiente para comprá-la, já que ao fazermos isso entramos, sem possibilidade de remissão, no terreno acre do abuso: o humano explorando o humano.

O fato do Flamengo – a maior torcida do país – fazer todos os seus jogos no Maracanã é significativo: a cidade do Rio de Janeiro estará sempre em festa. Esta constatação político-econômica apenas mostra a extensão do abuso que é o de manter as coisas no lugar, que é aquele ocupado pelos "grandes": nenhum clube do interior – ou periferia - jamais ganhou o Campeonato do Estado do Rio de Janeiro desde a unificação em 1979; anteriormente só Bangu, em 66, e América, em 60; um tempo longo demais.

Abuso da fome para privilegiar os que sempre tiveram privilégios: isto é verdadeiramente uma relação econômico-financeira (lei da oferta-e-procura, acumulação de riqueza e luta de classes); mas o fato de um produto estar à venda a preço barato não obriga ninguém, mesmo aquele que tenha amplitude e sobra de recursos, a comprá-lo. Ao contrário, a compra será sempre uma escolha do comprador, que deve responder por tal ato.

Perante o "tribunal da História"?

Bem, talvez nada tão grandioso assim...

Mas, de qualquer forma, um tribunal: somos nós, os pares humanos, que não podemos aceitar tais abusos (e isto está para além de qualquer religiosidade, arte, ciência ou filosofia: é humanismo). Nem que seja por precaução: em um triste dia, cada um de nós, talvez todos nós, poderá estar numa esquina com muita fome... (mas, neste e somente neste caso: precaução demais é tão perigosa quanto arrogância infinita).

Por fim, o futuro: o que os "grandes" inventarão quando os pequenos fluminenses superarem mais esta dificuldade, quando expuserem mais uma vez sua capacidade de adaptação e sobrevivência diante da oligarquia carioca? Algo "genial" como "os grandes começam o campeonato com 3, 4 – talvez até 6 – pontos de vantagem" simplesmente porque são grandes? Não é nada impossível que os incompetentes utilizem tal estratégia de sobrevivência.

Nos anos 40/50/60 do séc. XX, tais práticas seriam correlatas (ou talvez limpa expressão) a uma figura sócio-política muito nossa conhecida: o coronelismo. Mas, em pleno séc. XXI, é sinal claro de desespero diante da perda crescente de espaço.

E, se não bastasse o horror de nos reconhecermos em tão distorcido espelho, ainda há um pior.

Há um monte de jornalistas/analistas que se arvoram nos mais diversos "socialismos" (desde a lustrosa louvação do homem que vem das classes baixas e não se "subordina aos ditames do poder constituído", até a glorificação de regimes políticos ditatoriais suportados na propaganda mentirosa da "melhoria das condições de vida do povo") que concordam – pois nada dizem contra esse modelo continuísta – com tais abusos. E por que concordam sendo omissos? Simplesmente porque são torcedores dos "grandes", portanto, com a visão nublada pela paixão clubista: também querem, mesmo que secretamente, sentir a alegria do título. Ou seja, mudança só aquela que não ameace o lugar privilegiado do "grande". Pois "socialismo" não é só igualar, em posses econômico-financeiras, os pequenos aos grandes, mas, sobretudo, não aceitar tão facilmente que os grandes explorem os pequenos.

Aqueles dos quais poderíamos esperar alguma luz apenas nos acenam com a mais antiga das trevas: tudo como era antes na mais perfeita ignorância de um presente que idolatra o passado morto.

Aristocracia.

É de chorar. Mesmo.

Não é à-toa que tem sido chamado de Cariocão-08.

Segundo os dicionários/gramáticas, carioca é adjetivo pátrio relativo exclusivamente à cidade do Rio de Janeiro, sendo que, quando a relação se dá com o Estado do Rio de Janeiro, o termo correto é fluminense (ao menos, ainda por hoje). Pode ser fenômeno muito simples: ampliação do sentido da palavra, procedimento que o senhor da língua, o povo, faz corriqueiramente e os dicionários/gramáticas são sempre os últimos a saber. Ou muito mais complexo: o campeonato é, verdadeiramente, carioca e mais nada. Um torneio no qual os "de fora" só podem participar como sacos de pancada e fornecedores de pontos aos "de dentro". Não que alguns dos pequenos não sejam, por sua "pequenez", sacos de pancada, mas, inscrever essa eventual condição na letra da lei (o regulamento) é impedir qualquer possibilidade de mudança nas pancadarias ao saco.

Porém, de forma alguma, tal mentalidade de manutenção das coisas no seu "devido lugar" – e com os conseqüentes privilégios aos já naturalmente privilegiados, pode ser vista como uma exclusividade do Cariocão-08. A prostituição se diferencia apenas em grau, em quantidade, nunca em gênero, em qualidade: o Paulistão-08 não permite aos pequenos que exerçam seu direito de mando de jogo nas semifinais e finais. Ou seja, na hora mais importante a mão do monstro se revela.

É verdade que muitos dos pequenos "de fora" jamais se tornarão grandes "de dentro", mas, disfarçar na esmola o desejo de jamais ajudá-los é de doer.

É de chorar.

Mesmo.

 

Categoria: futebol
Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 16h59
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APRESENTAÇÃO

Para que é que serve um Blog? Aqui há uma opinião interessante. Enquanto isso, lá vamos nós pelos hipervelozes textos do século XXI. Ladeira abaixo. E internet acima.

***

...POBRE LEITOR DO SÉCULO XXI...

 

um zilhão de gente fazendo poemas,

ensaios, artigos, contos, livros em geral

(todos – quase – muito bons, aliás)

 

tem um bocado de estrondo e de polêmica

todo mundo tem alguma coisa boa a dizer

(e um bocado de babaquaradas também)

 

e como a net é de graça e nunca foi anêmica

nestas arrogantes velocidades do moderno

(alguém aí sabe o que é o mundo moderno?)

 

um zilhão de gente fazendo gracinhas

e nem li ainda os clássicos todos

(tanto a fazer e o tempo tampouco dura)...

 

...pobre leitor do século vinte-e-um...

tantos nomes e tão pouco tempo

...pobre leitor do século vinte-e-um...

clássico de ontem é o antigo de hoje

...pobre leitor do século vinte-e-um...

o bom de hoje faz o velho de ontem

...pobre leitor do século vinte-e-um...

brancos, metros, rimados ou livres

...pobre leitor do século vinte-e-um...

amanhã será coisa já muito vista

...pobre leitor do século vinte-e-um...

tantos deveres tão poucos direitos

...pobre leitor do século vinte-e-um...

liberdade é uma morte bem vinda

...pobre leitor do século vinte-e-um...

tanto para ler tanto para saber

...pobre leitor do século vinte-e-um...

o certo na esquerda e na direita

...pobre leitor do século vinte-e-um...

o insentido advindo da maiêutica

...pobre leitor do século vinte-e-um...

haja grana para pagar tudo isso

...pobre leitor do século vinte-e-um...

não precisa se sentir atropelado

...é só o século vinte-e-um...

 

(mas, cuidado: o próximo pode ser ainda pior...

neste mundo tão pequeno e azul caberá tanta inteligência?

E olha que é só um planetinha azul de um sistema estelar

de quinta grandeza na periferia de uma pequena galáxia

nos baixios de um canto esquecido do Universo...)

 

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 15h34
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM CIDALIA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Música, procurando emprego

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