Do outro (do negócio): Mutatis mutandi.
Houve um tempo no Brasil em que havia torneios de pontos-corridos, em turno e returno. Diz a lenda que essa fórmula de disputa foi abandonada porque o Santos, de Pelé & ótima Cia., ganhava a maior parte desses torneios. A culpa, seguindo a lenda, foi do Santos; e de Pelé, por extensão.
Estranho, não é? O melhor, por ser o melhor, não pode ganhar... O melhor deve ser punido por ser o melhor. Ora, ora... antes de exaltar, destruir...
Não é estranho, não é perverso, é humano. A inveja que cega.
Porém, o engasgo para essas mentes é que o Santos continuou a ganhar a maior parte dos torneios. E por ganhar, fosse em pontos-corridos ou em qualquer outra fórmula esdrúxula, o "problema" (insolúvel) era o Santos, não a forma de disputa. Mas a tentativa frustrada não esconde o desejo; ao contrário, mostra-o mais claramente.
Nos anos 60 o belga Raoul Mollet preconizava que a excelência técnica (Pelé, Di Stefano, etc.) poderia ser anulada, ou pelo menos ter seus efeitos atenuados, através da ocupação de espaços possibilitada pela excelência física. Há reparos, discordâncias e desgostos quanto a isso (e aos seus possíveis desdobramentos nas décadas seguintes), mas é inegável que, por ser tentativa restrita às quatro linhas, não peca pela indecência da mudança das regras de disputa. Mudar as regras de disputa de um torneio para coibir a excelência do melhor é malandragem, esperteza, covardia, abuso de autoridade, ignorância e, pior de tudo, preguiça.
O exemplo de Mollet, em sua essência, é o que deve ser seguido: modificar-se a fim de melhorar (o tempo, e as opiniões, dirão se a melhoria, qualquer que seja, será conseguida), mas jamais apelar para a truculência do exercício arbitrário do poder. Mudar as regras é a confissão da incompetência em melhorar a si mesmo. É a "bronca", último recurso do incompetente, como já disse o sábio filósofo Stanislaw Ponte Preta.
Se houver um clube que entenda mais e melhor que qualquer outro como um torneio de pontos-corridos em turno e returno deve ser disputado; ou se as vitórias são simples favorecimento do acaso; se tal clube aprendeu quais são as competências que devem ser adquiridas e mantidas a fim de se obter o resultado desejado; ou se o clube é simplesmente o menos pior entre os irrisórios; se há um clube que compreendeu que o valor do trabalho é maior e traz frutos mais doces e colheitas mais duradouras que os recursos da malandragem, este clube não pode ser punido por ser vencedor.
Mudar a regra é a fantasia de "passar a perna": a criança que descobre na mentira uma forma de burlar a autoridade paterna, o malandro que engana o rico/patrão; mas esta segunda frase não é um arremedo da primeira? Ainda que sendo a primeira compreensível (experiência de desenvolvimento do si-mesmo – ego, eu, etc. – no confronto com o mundo exterior) não é a segunda desprezível (preguiça "macunaímica" de não melhorar a si mesmo a fim de enfrentar a excelência do outro)?
Mais que simplesmente a punição ao melhor, como já fizeram com o Santos, o risco é voltar a uma paixão que já não mais satisfaz. Voltar a um passado que não faz mal apenas ao futebol: faz muito mal ao Brasil. Porque o Brasil está cansado de "jeitinhos", de conchavos, de prevaricações, de peculatos, de favorecimentos a amigos e parentes. O Brasil quer a competência.
As mais extravagantes e híbridas fórmulas de torneios têm algo em comum: a final, o confronto que encerra tudo e, em si, tudo encerra. É esta figura quase mitológica que tem sido abusada nos argumentos contra os campeonatos de pontos-corridos ao lhe ser dada uma condição, uma essência, muito maior do que a real, através de um descolamento desse evento da realidade toda do futebol, ou, em outras palavras, a final só adquire sua grandiosidade se o futebol for um mundo à parte, um mundo fora do mundo. Um delírio, portanto. Coisa que, obviamente, o futebol não é. Mas, se deliram os homens que nele estão... bem, isso é coisa sobre a qual ainda muito há de se falar.
Os acólitos das finais tem três argumentos principais a embandeirar seus estandartes: emoção, igualitarismo e tradição. Vamos ver se nos próximos parágrafos há inspiração e conhecimento suficientes para driblar estes três zagueirôes.
Um revólver na têmpora, "a bolsa ou a vida", cena comum, também produz emoção. Quem aí se habilita a repetir a experiência?
A emoção de que tanto se fala é só uma emoção da vitória. Pergunte ao torcedor cujo time perdeu se ele deseja repetir a "emoção" desse jogo.
A final pode ser "emocionante", mas só será experiência que se deseje repetir se for a experiência da vitória. Nada muito longe: final da Copa de 50, seguramente um dos jogos mais emocionantes da história, e que tanto marcou o futebol brasileiro. A mesma pergunta: quem se habilita a repetir a experiência?
Emoção, por si só, é um conjunto de reações físicas (taquicardia, espasmos musculares, alterações da pressão arterial, etc.) desencadeadas a partir de sensações das quais não pode ser dissociada; sendo que tais sensações (originadas de estímulos esternos e internos), em sua plenitude, não estão necessariamente disponíveis à consciência. Assim, não podemos ver a emoção; somente a reação emocional, a partir da qual inferimos haver um psíquico junto a esse físico.
Não existe emoção boa ou ruim, certa ou errada, apenas existe a emoção que se deseja repetir e o seu contrário. É como se os cupinchas das finais pensassem apenas no antes das finais, nunca no depois; é como se preocupar só com as delícias de encher a cara, sem pensar na ressaca. Emoção compreende em si mesma um fluxo temporal absoluto: nem presente, passado ou futuro, mas tudo; e este tudo só compreende o tempo entre o inicio e o fim da partida, que é onde as reações podem ser vistas e a partir do qual estas ganharão ou não a condição de serem situações que se deseje repetir.
Na verdade, neste caso específico, a emoção está sendo usada no lugar de excitação, o que é bem diferente. (O quê!? "...no lugar de..."?.. Se está no lugar de, então é uma metáfora, oras!).
A antecipação fantasiosa de um acontecimento, para a mente que devaneia, traz possibilidades de realização do desejo. Mas que, sendo tais "possibilidades" apenas fantasia, nada nos dizem do fenômeno sobre o qual se fantasia, embora digam muito do sujeito que faz isso. Ou seja, uma final não estimula diretamente qualquer "emoção" nas pessoas: apenas é usada como veículo de propagação do interno do sujeito, é um investimento psíquico em um objeto externo que, a partir disso, passa a estar revestido de valor e sentido (se não fosse assim, todas as pessoas, inclusive alienígenas que nem sabem o que é futebol, também se veriam "emocionadas").
O humano é que percebe como tensão agradável a possibilidade de vencer, de ser agraciado pela Fortuna, de ver um favorecimento do acaso; de comemorar um gol do morrinho-artilheiro e sobrepujar as probabilidades adversas, ou ver confirmadas as regras do mundo na forma de uma goleada implacável sobre aquele que foi menos competente.
E quem são estes humanos que fantasiam? São somente aqueles cujos clubes/times do coração estão envolvidos; assim nada resta aos outros a não ser, talvez, a torcida contra um dos times envolvidos (até porque esta não é uma manquitola possibilidade de satisfação).
Portanto, existe uma hipótese de que as finais sejam diferentes do que se pensa ("excitação", e não "emoção"), como também não sejam uma essência "pura" (seu valor só existe por ação humana sobre o evento), tanto quanto, seja lá o que forem, só o são para aqueles diretamente envolvidos; assim, tudo isso não lhes dá um caráter de "para todos", ou seja, um caráter irrestrito e não circunstâncial.
Mas tal caráter necessariamente as invalida? Isto as faz indesejáveis?
Não.
Contudo, impede que sejam vistas como situações irrecorrìveis a exigir rendição incondicional.
O valor dessa excitação, mesmo restrito a dois grupos específicos, realmente é sua característica e salvação, mas o futebol não é mundo à parte, mundo apenas de excitações. Por isso, se a excitação (controlada e agradável) é parte muito importante dessa metáfora, no mundo real ela não pode se sobrepor a valores mais altos. A "emoção" não pode servir como único apego, não deve bastar por si só: deve fazer concessões a algo melhor, deve dividir seu espaço com algo que promete mais enquanto ainda promete "emoção". Pois, é claro que não é impossível que as finais sejam realmente mais excitantes que a construção de um título em um campeonato de pontos corridos, mas também não é impossível que sejam tão mais excitantes que delas não se possa abrir mão em favor de um valor mais alto.
É crível que o torcedor, que se esgoela e vibra excitado na arquibancada, realmente queira, do mais fundo de seu ser, outra coisa que não a vitória, com ou sem "emoção"?. Perguntemo-lhes se querem um "tedioso" 8 a 0 ou "emocionante" 1 a 0 e, sem dúvida, haverá respostas para ambos os lados, mas nenhum deles desejará um "emocionante" 0 a 1. Vitória, tediosa ou emocionante, tanto faz. Senão teremos que crer que o emocionado torcedor do time derrotado tecerá emocionantes loas aos jogadores que emocionantemente perderam uma emocionante final...
E, assim sendo, por que tanta defesa da "emoção" da final, essa coisa tão próxima do imponderável? A não ser que esse desejo não seja o do torcedor. E aí as coisas mudam: transvestir o desejo pessoal de desejo do outro é bandidagem (se não ignorância, na mais caridosa das hipóteses). É por isso que sempre deve ser perguntado para quem é que as finais são emocionantes?
É possível que as finais sejam um simbólico?
Possibilidade do mais fraco vencer o mais forte em um duelo único e fatal, uma metáfora das relações sócio-econômicas presentes na formação do Brasil: escravidão e miscigenação, casa-grande e senzala muito próximas em um corpo-a-corpo sexual, dialética senhor-escravo (malandro-otário)?
Mas, como é possível sempre pensar a quem o malandro engana em sua ilusão de potência, pode-se perguntar: os pequenos/fracos têm realmente chances? Assim como o malandro que engana a si mesmo tanto quanto ao outro, nessa ilusão de socialismo "finalista" os pequenos/fracos ganharam ao menos 50% das finais que disputaram?
Vejamos: em 37 edições do Campeonato Brasileiro só 3 vezes ganhou um clube que não pertencesse à formação original do Clube dos Treze: 8,1% das vezes. Na Copa do Brasil, um pouco mais: 21%, 4 títulos em 19 tentativas (e considerando que os clubes que participam da Taça Libertadores não participaram em várias edições, clubes estes em sua maioria da formação original citada).
Um pouco longe dos 50%, não?
E muito mais distante do imaginário socialista da igualdade. As chances que os fracos/pequenos tinham no passado são as mesmas de hoje. Simbólico aqui só a miragem que mantém tudo no mesmo lugar.
Realmente as finais estiveram na cultura provavelmente por satisfazerem essa ilusão de que grandeza e poder podem ser divididos igualitariamente e que aqueles que as têm abrirão mão muito levianamente dessa posse. Dessa forma, foram o modo adequado ao espírito de um tempo, o jeito que a época possibilitava: um imaginário de possível superação das mazelas sociais e pessoais pela ação da esperteza em aproveitar uma chance única de vencer, aproveitando os favorecimentos do acaso e a recompensa divina à manutenção da esperança.
E se é isso que as finais expressam, então falsidade está expressa, pois os pequenos/fracos não ganham tanto quanto se imagina.
Se as finais de torneios tem mais "a ver com a nossa cultura"? Sem dúvida, mas tão-somente se considerarmos cultura um monolito, coisa pronta jamais a ser desfeita, que jamais incorpora coisas a si mesma enquanto abandona coisas de si mesma ao longo do caminho. Mas, se for coisa estática, pronta, acabada, como poderia o futebol ter se inscrito numa cultura brasileira de fins do séc. XIX e início do séc. XX, sendo um estrangeirismo, uma criação anglo-saxã? A menos que existisse uma proto-cultura nesse período, que posteriormente amadureceu tendo as finais dentro de si e, portanto, não pode mais ser alterada...
Mas que cultura é essa que exige a permanência das finais?
Se concordarmos com a idéia de que as finais têm inapelavelmente mais a ver com a cultura brasileira do que os pontos-corridos, devemos obrigatoriamente concordar que a cultura brasileira é um passado, um retrato do Brasil dos anos 40/50/60 do séc. XX; assim, o Brasil deve ser, no seu todo, o que já foi: analfabetismo, ditadura, feudalismo rural, endemias diversas, coronelismo, economia estatizada, distribuição muito desigual de riqueza, etc.
Este é o real peso da tradição: não se pode querê-la em partes; é prato-feito, é pegar ou largar, pacote completo, na alegria e na tristeza. Fora disso qualquer outro peso é falso, é apenas continuísmo, preguiça e apego ao gosto pelo imponderável, pelos possíveis – e sempre pouco prováveis – favorecimentos do acaso. O costume, conjunto de práticas e pensares mantidos à falta de coisa mais útil, não tem em si mesmo nada de incoercível: diante de melhor fazer e pensar, os humanos, desde que desceram das árvores, o têm reformulado e, por vezes, abandonado. O "peso" está no medo da mudança e no medo do futuro: na cegueira às transformações do mundo.
É a esta "tradição" que devemos render homenagens? Aceitar uma tradição simplesmente porque é uma "tradição"? Devemos nos curvar a este "tem mais a ver com o Brasil"? É a esta âncora amarrados que passaremos a eternidade no fundo do mar?
Lamento, mas Paris é linda nesta época do ano... e, além do mais, o sal não faz muito bem à minha pele...
Além domais, é preciso ter muito cuidado com essa conversa de "ter mais a ver com nossa cultura", pois, mesmo sem querer, e nem pensar muito, logo se está a defender os "valores nacionais" contra as "invasões estrangeiras". E dessas patacoadas nacionalistas ao patriotismo é passo fácil. E o patriotismo, um sábio já disse, é o último e um ótimo refúgio...
Mas não deve deixar fluir um pensamento de que a "final" é uma negatividade em si mesma (é o uso que dela se fez que não cabe mais neste mundo), pois há um lugar glorioso reservado: a Copa do Brasil. Também há lugares não tão belos, mas ainda assim ocupáveis: os torneios estaduais, desde que reduzidos à sua real condição de preparatórios para as disputas que realmente importam.
Por isso é que a Copa do Brasil deve ser valorizada: a participação dos clubes que disputam a Taça Libertadores é imperiosa, tanto quanto a manutenção do sistema atual (mata-mata implacável do começo ao fim). Poucas datas? Que diminuam-se as datas concedidas aos estaduais, antecipando o início da disputa para que os clubes que participam da Taça Libertadores não sejam penalizados por seqüência cruel de jogos. Que seja essa a concessão à tradição, àquilo que tem muito a ver com nossa cultura... Pois, no mata-mata feroz, do começo ao fim do torneio, há chances muito menores de que os finalistas tenham entre si grande diferença de competência, muito ao contrário do que acontece em um híbrido pernicioso que misture os dois sistemas e que permita a um clube classificado em sétimo ou oitavo ser campeão. Nesse híbrido infernal a primeira fase pouco vale: basta ficar entre os oito; ficando a "emoção" restrita aos mata-mata finais, ou seja, tão circunstâncial que não há chance de ser fundamental.