DRAGON BLUES

fut-metáfora


24/02/2008


GESTÃO - parte IV

The Times, They Are A-Changing.

Uma vez que o torcedor quer mesmo é vitória, a forma pela qual será obtida (quase) pouco importa: se o torcedor não se envergonha quando o técnico joga uma bola em campo para paralisar/atrasar o jogo ou quando o dirigente manda pintar o vestiário no dia do jogo, então a forma de disputa pouco lhe importa. Assim, usar o argumento emocional para defender o retorno aos sistemas antigos é mais apego aos sistemas antigos que à "emoção".

Dar chance ao menos competente é um acinte à ética do trabalho, sendo este não apenas o labor diário constante a gastar a energia que, de outras formas, seria gasta em atividade "moralmente condenável", mas principalmente a aquisição de competências e resultados úteis ao indivíduo e sociedade. Quando o menos competente é equiparado, em chances de ganho, ao mais competente, tudo que é mostrado ao mundo é que sempre se pode dar um "jeitinho" na incompetência.

É este o grande poder do hábito: fazer com que aquilo que estamos acostumados por intensa repetição seja visto como necessidade. É o estabelecimento de uma relação inequívoca, neste caso, entre sobrevivência e cultura; como se a cultura futebolística não pudesse existir sem finais; o que é muito duvidoso, pois se tal cultura sobreviveu a o que Carlos A. Parreira fez em 94, então é bem mais forte do que se pensa.

Porém, se há três zagueiros, pode haver também um cabeça-de-área, volante-de-contenção. Caminhar com cuidado é preciso, pois pode haver algo insidioso por baixo dos pés. Finais, na maior parte das vezes, lotam os estádios; portanto, maior interesse de anunciantes e patrocinadores; por conseguinte, elevam-se o valor das cotas e o trabalho dos departamentos de marketing. Nesse caso, pode ser que haja interesses econômicos, principalmente dos veículos de comunicação, a insuflar e fortalecer os pedidos de retorno ao passado; pode não ser nada disso; pode ser que, infiltrada nas cabeças, não se perceba a mão firme e ágil do titereiro, dono dos meios de produção e senhor do capital, a movimentar as ilusões de bom senso; pode não ser nada disso. Eleger as relações sócio-econômicas como única mediação dos interesses humanos, através do primado da luta de classes, é antropologia muito fraca; negar-lhes ao menos uma razoável influência, é ingenuidade. A serpente está entre nós, sua picada não mata, mas leva ao hospital: desavisadamente pisar nela não é permitido.

Mas os tempos, eles estão mudando...

O Campeonato Brasileiro em sistema de pontos-corridos, em turno e returno, é um retrato melhor de nós mesmos. Uma possibilidade de um futuro melhor, sem as velhas malandragens, espertezas, sem jeitinho e com jeito de adulto.

Pontos corridos são a reafirmação na brasilidade, através do futebol, do trabalho como valor superior. Um sonoro NÂO aos giros da roleta. Nunca uma negação ao passado, não uma rejeição do que fomos, mas sim a compreensão de que alguns instrumentos do passado não são mais úteis; é a valorização de algo que também fomos/somos. Sendo parte da identidade o futebol não é o repositório do todo cultural: antes de ser só influenciado o futebol pode também influenciar.

É isto que o reclamões contra o sistema de pontos-corridos não percebem: a existência de um melhor (time, clube) deve servir de incentivo à melhoria e não de catalisador de destrutividade disfarçada de advocacia da "emoção", da "igualdade" e da "cultura nacional". Se o outro corre muito à frente, dar-lhe um tiro nas costas pode ser o que muito já foi feito, mas não é o que o futuro espera de nós. Melhorar é preciso, ressentimento de derrotado não é preciso.

O campeonato de pontos-corridos, pode ser apenas um derivado da mudança geral de mentalidade que ocorre na sociedade brasileira (a redemocratização iniciada nos anos 80 do século XX), mas isto não lhe confere um lugar pequeno: pode ser um extraordinário reforço a tais mudanças. Pois, advogar o passado é fazer o jogo dos TCP: a recusa aos rigores da competência, do trabalho, da organização, da virtude do humano-de-bem acoplada à legalidade determinada pela sociedade. É amor ao "vamo-que-vamo" rotineiro daqueles que acreditam demais naquilo que vêem no espelho e menos nos rigores do mundo. Pois é neste apego ao antigo, ao mais fácil, à malandragem, neste gostar demais de si mesmo, que o negócio do futebol é gerenciado.

Cuidar do negócio enquanto é dito que se cuida do outro. Mas, aqui não há metáfora. Há apenas a indecência da inveja e da vaidade.

Todavia, alguma coisa está acontecendo, Mr. Jones, e, ainda que desgostes, continuará a acontecer.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h43
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GESTÃO - parte III

Do outro (do negócio): Mutatis mutandi.

Houve um tempo no Brasil em que havia torneios de pontos-corridos, em turno e returno. Diz a lenda que essa fórmula de disputa foi abandonada porque o Santos, de Pelé & ótima Cia., ganhava a maior parte desses torneios. A culpa, seguindo a lenda, foi do Santos; e de Pelé, por extensão.

Estranho, não é? O melhor, por ser o melhor, não pode ganhar... O melhor deve ser punido por ser o melhor. Ora, ora... antes de exaltar, destruir...

Não é estranho, não é perverso, é humano. A inveja que cega.

Porém, o engasgo para essas mentes é que o Santos continuou a ganhar a maior parte dos torneios. E por ganhar, fosse em pontos-corridos ou em qualquer outra fórmula esdrúxula, o "problema" (insolúvel) era o Santos, não a forma de disputa. Mas a tentativa frustrada não esconde o desejo; ao contrário, mostra-o mais claramente.

Nos anos 60 o belga Raoul Mollet preconizava que a excelência técnica (Pelé, Di Stefano, etc.) poderia ser anulada, ou pelo menos ter seus efeitos atenuados, através da ocupação de espaços possibilitada pela excelência física. Há reparos, discordâncias e desgostos quanto a isso (e aos seus possíveis desdobramentos nas décadas seguintes), mas é inegável que, por ser tentativa restrita às quatro linhas, não peca pela indecência da mudança das regras de disputa. Mudar as regras de disputa de um torneio para coibir a excelência do melhor é malandragem, esperteza, covardia, abuso de autoridade, ignorância e, pior de tudo, preguiça.

O exemplo de Mollet, em sua essência, é o que deve ser seguido: modificar-se a fim de melhorar (o tempo, e as opiniões, dirão se a melhoria, qualquer que seja, será conseguida), mas jamais apelar para a truculência do exercício arbitrário do poder. Mudar as regras é a confissão da incompetência em melhorar a si mesmo. É a "bronca", último recurso do incompetente, como já disse o sábio filósofo Stanislaw Ponte Preta.

Se houver um clube que entenda mais e melhor que qualquer outro como um torneio de pontos-corridos em turno e returno deve ser disputado; ou se as vitórias são simples favorecimento do acaso; se tal clube aprendeu quais são as competências que devem ser adquiridas e mantidas a fim de se obter o resultado desejado; ou se o clube é simplesmente o menos pior entre os irrisórios; se há um clube que compreendeu que o valor do trabalho é maior e traz frutos mais doces e colheitas mais duradouras que os recursos da malandragem, este clube não pode ser punido por ser vencedor.

Mudar a regra é a fantasia de "passar a perna": a criança que descobre na mentira uma forma de burlar a autoridade paterna, o malandro que engana o rico/patrão; mas esta segunda frase não é um arremedo da primeira? Ainda que sendo a primeira compreensível (experiência de desenvolvimento do si-mesmo – ego, eu, etc. – no confronto com o mundo exterior) não é a segunda desprezível (preguiça "macunaímica" de não melhorar a si mesmo a fim de enfrentar a excelência do outro)?

Mais que simplesmente a punição ao melhor, como já fizeram com o Santos, o risco é voltar a uma paixão que já não mais satisfaz. Voltar a um passado que não faz mal apenas ao futebol: faz muito mal ao Brasil. Porque o Brasil está cansado de "jeitinhos", de conchavos, de prevaricações, de peculatos, de favorecimentos a amigos e parentes. O Brasil quer a competência.

As mais extravagantes e híbridas fórmulas de torneios têm algo em comum: a final, o confronto que encerra tudo e, em si, tudo encerra. É esta figura quase mitológica que tem sido abusada nos argumentos contra os campeonatos de pontos-corridos ao lhe ser dada uma condição, uma essência, muito maior do que a real, através de um descolamento desse evento da realidade toda do futebol, ou, em outras palavras, a final só adquire sua grandiosidade se o futebol for um mundo à parte, um mundo fora do mundo. Um delírio, portanto. Coisa que, obviamente, o futebol não é. Mas, se deliram os homens que nele estão... bem, isso é coisa sobre a qual ainda muito há de se falar.

Os acólitos das finais tem três argumentos principais a embandeirar seus estandartes: emoção, igualitarismo e tradição. Vamos ver se nos próximos parágrafos há inspiração e conhecimento suficientes para driblar estes três zagueirôes.

Um revólver na têmpora, "a bolsa ou a vida", cena comum, também produz emoção. Quem aí se habilita a repetir a experiência?

A emoção de que tanto se fala é só uma emoção da vitória. Pergunte ao torcedor cujo time perdeu se ele deseja repetir a "emoção" desse jogo.

A final pode ser "emocionante", mas só será experiência que se deseje repetir se for a experiência da vitória. Nada muito longe: final da Copa de 50, seguramente um dos jogos mais emocionantes da história, e que tanto marcou o futebol brasileiro. A mesma pergunta: quem se habilita a repetir a experiência?

Emoção, por si só, é um conjunto de reações físicas (taquicardia, espasmos musculares, alterações da pressão arterial, etc.) desencadeadas a partir de sensações das quais não pode ser dissociada; sendo que tais sensações (originadas de estímulos esternos e internos), em sua plenitude, não estão necessariamente disponíveis à consciência. Assim, não podemos ver a emoção; somente a reação emocional, a partir da qual inferimos haver um psíquico junto a esse físico.

Não existe emoção boa ou ruim, certa ou errada, apenas existe a emoção que se deseja repetir e o seu contrário. É como se os cupinchas das finais pensassem apenas no antes das finais, nunca no depois; é como se preocupar só com as delícias de encher a cara, sem pensar na ressaca. Emoção compreende em si mesma um fluxo temporal absoluto: nem presente, passado ou futuro, mas tudo; e este tudo só compreende o tempo entre o inicio e o fim da partida, que é onde as reações podem ser vistas e a partir do qual estas ganharão ou não a condição de serem situações que se deseje repetir.

Na verdade, neste caso específico, a emoção está sendo usada no lugar de excitação, o que é bem diferente. (O quê!? "...no lugar de..."?.. Se está no lugar de, então é uma metáfora, oras!).

A antecipação fantasiosa de um acontecimento, para a mente que devaneia, traz possibilidades de realização do desejo. Mas que, sendo tais "possibilidades" apenas fantasia, nada nos dizem do fenômeno sobre o qual se fantasia, embora digam muito do sujeito que faz isso. Ou seja, uma final não estimula diretamente qualquer "emoção" nas pessoas: apenas é usada como veículo de propagação do interno do sujeito, é um investimento psíquico em um objeto externo que, a partir disso, passa a estar revestido de valor e sentido (se não fosse assim, todas as pessoas, inclusive alienígenas que nem sabem o que é futebol, também se veriam "emocionadas").

O humano é que percebe como tensão agradável a possibilidade de vencer, de ser agraciado pela Fortuna, de ver um favorecimento do acaso; de comemorar um gol do morrinho-artilheiro e sobrepujar as probabilidades adversas, ou ver confirmadas as regras do mundo na forma de uma goleada implacável sobre aquele que foi menos competente.

E quem são estes humanos que fantasiam? São somente aqueles cujos clubes/times do coração estão envolvidos; assim nada resta aos outros a não ser, talvez, a torcida contra um dos times envolvidos (até porque esta não é uma manquitola possibilidade de satisfação).

Portanto, existe uma hipótese de que as finais sejam diferentes do que se pensa ("excitação", e não "emoção"), como também não sejam uma essência "pura" (seu valor só existe por ação humana sobre o evento), tanto quanto, seja lá o que forem, só o são para aqueles diretamente envolvidos; assim, tudo isso não lhes dá um caráter de "para todos", ou seja, um caráter irrestrito e não circunstâncial.

Mas tal caráter necessariamente as invalida? Isto as faz indesejáveis?

Não.

Contudo, impede que sejam vistas como situações irrecorrìveis a exigir rendição incondicional.

O valor dessa excitação, mesmo restrito a dois grupos específicos, realmente é sua característica e salvação, mas o futebol não é mundo à parte, mundo apenas de excitações. Por isso, se a excitação (controlada e agradável) é parte muito importante dessa metáfora, no mundo real ela não pode se sobrepor a valores mais altos. A "emoção" não pode servir como único apego, não deve bastar por si só: deve fazer concessões a algo melhor, deve dividir seu espaço com algo que promete mais enquanto ainda promete "emoção". Pois, é claro que não é impossível que as finais sejam realmente mais excitantes que a construção de um título em um campeonato de pontos corridos, mas também não é impossível que sejam tão mais excitantes que delas não se possa abrir mão em favor de um valor mais alto.

É crível que o torcedor, que se esgoela e vibra excitado na arquibancada, realmente queira, do mais fundo de seu ser, outra coisa que não a vitória, com ou sem "emoção"?. Perguntemo-lhes se querem um "tedioso" 8 a 0 ou "emocionante" 1 a 0 e, sem dúvida, haverá respostas para ambos os lados, mas nenhum deles desejará um "emocionante" 0 a 1. Vitória, tediosa ou emocionante, tanto faz. Senão teremos que crer que o emocionado torcedor do time derrotado tecerá emocionantes loas aos jogadores que emocionantemente perderam uma emocionante final...

E, assim sendo, por que tanta defesa da "emoção" da final, essa coisa tão próxima do imponderável? A não ser que esse desejo não seja o do torcedor. E aí as coisas mudam: transvestir o desejo pessoal de desejo do outro é bandidagem (se não ignorância, na mais caridosa das hipóteses). É por isso que sempre deve ser perguntado para quem é que as finais são emocionantes?

É possível que as finais sejam um simbólico?

Possibilidade do mais fraco vencer o mais forte em um duelo único e fatal, uma metáfora das relações sócio-econômicas presentes na formação do Brasil: escravidão e miscigenação, casa-grande e senzala muito próximas em um corpo-a-corpo sexual, dialética senhor-escravo (malandro-otário)?

Mas, como é possível sempre pensar a quem o malandro engana em sua ilusão de potência, pode-se perguntar: os pequenos/fracos têm realmente chances? Assim como o malandro que engana a si mesmo tanto quanto ao outro, nessa ilusão de socialismo "finalista" os pequenos/fracos ganharam ao menos 50% das finais que disputaram?

Vejamos: em 37 edições do Campeonato Brasileiro só 3 vezes ganhou um clube que não pertencesse à formação original do Clube dos Treze: 8,1% das vezes. Na Copa do Brasil, um pouco mais: 21%, 4 títulos em 19 tentativas (e considerando que os clubes que participam da Taça Libertadores não participaram em várias edições, clubes estes em sua maioria da formação original citada).

Um pouco longe dos 50%, não?

E muito mais distante do imaginário socialista da igualdade. As chances que os fracos/pequenos tinham no passado são as mesmas de hoje. Simbólico aqui só a miragem que mantém tudo no mesmo lugar.

Realmente as finais estiveram na cultura provavelmente por satisfazerem essa ilusão de que grandeza e poder podem ser divididos igualitariamente e que aqueles que as têm abrirão mão muito levianamente dessa posse. Dessa forma, foram o modo adequado ao espírito de um tempo, o jeito que a época possibilitava: um imaginário de possível superação das mazelas sociais e pessoais pela ação da esperteza em aproveitar uma chance única de vencer, aproveitando os favorecimentos do acaso e a recompensa divina à manutenção da esperança.

E se é isso que as finais expressam, então falsidade está expressa, pois os pequenos/fracos não ganham tanto quanto se imagina.

Se as finais de torneios tem mais "a ver com a nossa cultura"? Sem dúvida, mas tão-somente se considerarmos cultura um monolito, coisa pronta jamais a ser desfeita, que jamais incorpora coisas a si mesma enquanto abandona coisas de si mesma ao longo do caminho. Mas, se for coisa estática, pronta, acabada, como poderia o futebol ter se inscrito numa cultura brasileira de fins do séc. XIX e início do séc. XX, sendo um estrangeirismo, uma criação anglo-saxã? A menos que existisse uma proto-cultura nesse período, que posteriormente amadureceu tendo as finais dentro de si e, portanto, não pode mais ser alterada...

Mas que cultura é essa que exige a permanência das finais?

Se concordarmos com a idéia de que as finais têm inapelavelmente mais a ver com a cultura brasileira do que os pontos-corridos, devemos obrigatoriamente concordar que a cultura brasileira é um passado, um retrato do Brasil dos anos 40/50/60 do séc. XX; assim, o Brasil deve ser, no seu todo, o que já foi: analfabetismo, ditadura, feudalismo rural, endemias diversas, coronelismo, economia estatizada, distribuição muito desigual de riqueza, etc.

Este é o real peso da tradição: não se pode querê-la em partes; é prato-feito, é pegar ou largar, pacote completo, na alegria e na tristeza. Fora disso qualquer outro peso é falso, é apenas continuísmo, preguiça e apego ao gosto pelo imponderável, pelos possíveis – e sempre pouco prováveis – favorecimentos do acaso. O costume, conjunto de práticas e pensares mantidos à falta de coisa mais útil, não tem em si mesmo nada de incoercível: diante de melhor fazer e pensar, os humanos, desde que desceram das árvores, o têm reformulado e, por vezes, abandonado. O "peso" está no medo da mudança e no medo do futuro: na cegueira às transformações do mundo.

É a esta "tradição" que devemos render homenagens? Aceitar uma tradição simplesmente porque é uma "tradição"? Devemos nos curvar a este "tem mais a ver com o Brasil"? É a esta âncora amarrados que passaremos a eternidade no fundo do mar?

Lamento, mas Paris é linda nesta época do ano... e, além do mais, o sal não faz muito bem à minha pele...

Além domais, é preciso ter muito cuidado com essa conversa de "ter mais a ver com nossa cultura", pois, mesmo sem querer, e nem pensar muito, logo se está a defender os "valores nacionais" contra as "invasões estrangeiras". E dessas patacoadas nacionalistas ao patriotismo é passo fácil. E o patriotismo, um sábio já disse, é o último e um ótimo refúgio...

Mas não deve deixar fluir um pensamento de que a "final" é uma negatividade em si mesma (é o uso que dela se fez que não cabe mais neste mundo), pois há um lugar glorioso reservado: a Copa do Brasil. Também há lugares não tão belos, mas ainda assim ocupáveis: os torneios estaduais, desde que reduzidos à sua real condição de preparatórios para as disputas que realmente importam.

Por isso é que a Copa do Brasil deve ser valorizada: a participação dos clubes que disputam a Taça Libertadores é imperiosa, tanto quanto a manutenção do sistema atual (mata-mata implacável do começo ao fim). Poucas datas? Que diminuam-se as datas concedidas aos estaduais, antecipando o início da disputa para que os clubes que participam da Taça Libertadores não sejam penalizados por seqüência cruel de jogos. Que seja essa a concessão à tradição, àquilo que tem muito a ver com nossa cultura... Pois, no mata-mata feroz, do começo ao fim do torneio, há chances muito menores de que os finalistas tenham entre si grande diferença de competência, muito ao contrário do que acontece em um híbrido pernicioso que misture os dois sistemas e que permita a um clube classificado em sétimo ou oitavo ser campeão. Nesse híbrido infernal a primeira fase pouco vale: basta ficar entre os oito; ficando a "emoção" restrita aos mata-mata finais, ou seja, tão circunstâncial que não há chance de ser fundamental.

 

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h42
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GESTÃO - parte II

De si mesmo (do outro): Carpe diem.

No Brasil o futebol é dois: um que se quer ver (o desejo de quem está fora de campo, o "espetáculo" com vitória) e o outro que é jogado (o desejo de quem está dentro, a "vitória", com espetáculo se e quando possível). Entre tais pólos um universo de símbolos e personagens.

Os torcedores querem malabarismos individualistas em vitórias retumbantes, triunfos romanos; os jogadores só querem ganhar, pois é assim que surgirão as melhorias nos contratos, a melhoria de vida, a "independência financeira".

Mas exigir unicamente espetáculo é circunscrever o futebol em uma única forma de existência que desconsidera a realidade social dos protagonistas, é negar-lhe a possibilidade de ser meio de vida, modo de enriquecimento, que possa ameaçar a ordem constituída. A realidade imediata do protagonista é vencer, do jeito que for, para melhorar de vida. Negar-lhes tal chance é não permitir a homens livres nada além de uma existência de micos de circo bem adestrados para evitar a surpresa do risco.

Risco não do protagonista na execução de seu trabalho (sim, é trabalho), mas o mesmo risco que se corre ao comprar o ingresso para o teatro e deparar com texto mal escrito e deslocado, efeitos "especiais" de diretor espertalhão, dicção sofrível em belos rostinhos. Se o espectador de futebol não botar na cabeçona essa possibilidade de risco o futebol jamais poderá ser considerado arte: como no teatro, às vezes há pagamento, mesmo com as expectativas adequadas (ou seja, não esperar grande coisa), por um produto irrisório.

Se exigir "espetáculo" é lícito, por que tanto desgosto em ver os artistas bem pagos? A menos que o paralelo seja totalmente indevido já que o futebol não é arte.

Mas a questão aqui não é arte, é negócio: "independência financeira"; na verdade, independência é financeira (a finança define a independência). A gestão de si mesmo na fuga do universo socialmente limitado.

Sabem mesmo o que é isso? Talvez não saibam muito bem o que é uma e outra coisa e, muito menos, o que são as duas juntas. É aquilo que é "financeiramente independente", ou que independe do financeiro? Pois só existe uma forma de ser independente do financeiro: é afastar-se tanto dele que não se pode mais vê-lo nem usando o Hubble, ou refugiar-se em caverna escura, modo de vida impossível nesta nossa modernidade. Viver entre cães e dentro de um barril... quem está disposto?

Mas isto seria uma "independência econômica", portanto, não sejamos tão rigorosos com os usuários da expressão: eles não querem sair do mundo, só querem um lugar um tanto diferenciado, uma cadeira mais estofada, um lugar de ventos mais amenos.

"Independência financeira" é apenas enriquecimento, acúmulo de riqueza, maiores possibilidades de satisfação de desejos materiais, menor dificuldade em pagar as contas, fazer o pé-de-meia; e isto não independe o indivíduo do mundo em que ele vive (o mundo das relações de trabalho e sua remuneração), apenas o desloca de um ponto para outro do mesmo círculo, no qual pode-se estar mais perto ou mais distante de seu centro, mas nunca a miragem de estar fora dele.

As finanças são um parte da economia, não seu todo. Mas uma parte sem a qual é difícil pensar o "econômico" da coisa: seja nas regulações do papel-moeda, seja na forma mais direta do escambo, seja na finança que enriquece o indivíduo e depois o país, seja no país rico que enriquecerá o indivíduo.

Mas o que está em discussão, para este país, e especificamente neste momento histórico, é o enriquecimento do indivíduo por meio de seu talento.

Quando nossos antepassados das cavernas descobriram que a carne assada e/ou rolada sobre as cinzas das fogueiras durava mais, que defumar e/ou salgar a carne eram procedimentos que aumentavam as chances de sobrevivência por diminuir a dependência do sucesso diário na caça, eles estavam acumulando riqueza, e ao trocar o excedente da carne conservada (aquilo que não comprometesse a sobrevivência do indivíduo ou do grupo durante a escassez) por outras coisas que lhes fossem necessárias ou que lhes interessasse de alguma forma, estavam comercializando; ao utilizarem formas mais sofisticadas de guarda de recursos (um saco de couro para os grãos, uma cesta de vime para as frutas) eles estavam cuidando das finanças: cuidando do que se tem, preservando o acumulado. Nada de novo: nossos antepassados das cavernas já eram seres econômicos. E nessa perspectiva, e sem muito rigor, um leopardo que carrega sua presa para o alto da árvore, a fim de protegê-la de outros predadores (e com isso reservando-se uma ou duas refeições posteriores), está sendo econômico, nessa sua estratégia básica de sobrevivência.

Tudo isso, nos parece, faz do humano um ser, entre muitas outras coisas, econômico e, por conseguinte, financeiro. Se acumulação de riqueza em si mesma não é pecado, por que tantos pruridos, tanta verborragia em dizer independência financeira? Estaria na palavra pecado a chave para tanta vergonha em enriquecer? Será que, neste pobre país, neste país pobre, acumulação de riqueza é pecado? E, por conseguinte, aquilo que a engendra (o talento) também um pecado, uma graça imerecida: algo que, ao contrário de elevar, diminui a criatura aos olhos do criador?

As relações, de matiz muito escravagista, entre TCP e atletas são apenas uma expressão, uma aparência, de algo mais profundo: a inveja dos gigantes, a restrição ao bem-aventurado pelo talento, a esta graça cujo merecimento está longe demais para ser visto.

O jogador gerencia não só os seus desejos mas é obrigado a gerenciar os desejos de outro, de muitos outros. E os desejos não são apenas os econômico-financeiros: seja os da família (desde pai e mãe até o primo de terceiro grau) que também quer sua "independência financeira", seja os do empresário/procurador, muitas vezes definido como "amigo", mas que, na verdade, apenas intermedia a relação trabalhista (se bem que faça isso com muito mais competência que os TCP). O desejo a gerenciar é a relação ambivalente dos outros com o seu talento: admiração e inveja, sinceras.

Por isso, cabe ao jogador gerenciar a tolerância a quem se "independe financeiramente" aumentando-a com as visitas aos doentes, aos menos favorecidos, aos que choram e sofrem. Não basta ser humilde: é obrigatório mostrar humildade. É claro que os que choram e sofrem precisam de solidariedade, mas para que as câmeras da televisão?

É o dinheiro que se ganha e, quando da derrota, não parece justo. Frisemos: quando da derrota. Aqui também se aplica, na prática, um dos lugares-muito-comuns do futebol: "não se mexe em time que está ganhando". Enquanto a Seleção Brasileira está ganhando ninguém se lembra dos rendimentos dos Ronaldos, mas basta a primeira derrota... e "mercenários" é a menor das ofensas.

A meritocracia capitalista não é feita de momentos de satisfação do cliente (esta é um meio para um fim), mas sim do volume de vendas, ou seja do dinheiro que o cliente transfere para o vendedor, das transferências patrimôniais que redundem em lucro. Concluir e não aceitar que o atleta muito bem remunerado (o que é ser "muito bem remunerado"?) não possa jogar mal (o que é "jogar mal"?) é tanto negar-lhe a humanidade que marca a ferro quente todos nós, quanto cobrar-lhe preço alto demais pelo talento. Por ter sido agraciado (pela Natureza, Fortuna, Providência, um deus bêbado, o demiurgo maluco, uma musa com TPM, sei lá o que, Deus?) com tão invejável diferenciação não lhe está garantido o direito de destaque dos demais também pela remuneração e acumulação de riqueza?

Está longe o tempo em que para ser considerado artista era preciso fome & desabrigo, desatino & maldição?

Não?

Vejamos: de 16 a 18 anos freqüentando bancos escolares, início como trainee/estagiário, cursos complementares (línguas, especializações, lato/strictu sensu), formação/consolidação/manutenção de uma "reputação", década ou mais de trabalho disciplinado, e esse f.d.p. desse moleque de 18 anos recebe, em uma transferência de clube, em um único dia, mais dinheiro que se receberá em uma vida inteira de trabalho árduo... Talvez realmente os gigantes devam mover-se em completo silêncio para não despertar os menos favorecidos.

Não será por isso que, nas derrotas, o jogador é sempre o primeiro a ser responsabilizado? "Ganha tanto e não sua a camisa". "Se é prá fazer isso, me contrata; porque isso aí eu falo pela metade do salário". Não é este o outro gume da faca da alta remuneração? Não é este o caminho pelo qual se expressa o rancor dessa bem-aventurança que é o talento diferenciador? Não é momento em que pensamos que realmente podemos fazer o que um atleta profissional faz? Exato. Momento da ilusão de que sabemos tudo de futebol.

Não se quer que o atleta apenas faça o que não podemos, exigi-se que também vença. O espetáculo e a vitória. Não se quer apenas que o atleta faça-nos maiores do que jamais poderíamos ser por nós mesmos, queremos que vença. Pois sabemos que é guerra, disfarçada, na qual perder é ser engolfado pelo inimigo, é ser sujeitado a gostar do que o inimigo gosta, perder é ser o inimigo. Porque o futebol está tão dentro de nós que não admitimos que o atleta faça algo que achamos que não faríamos. Mas não desesperemos: tudo isto dura apenas uma fração de segundo, logo em seguida a civilidade irrompe na cabeça e põe as cadeiras no lugar. Porém, nunca impunemente: as marcas ficam como registro de uma possibilidade assustadora que a civilização dentro da cabeça assinala como impossível, mas que o real da cabeça, dentro da cabeça, diz ser permitido.

De exemplo típico de vagabundagem a homem cobiçado pela maria-chuteira-padrão, um caminho longo, mas nunca lento. Talvez rápido demais para ser assimilado facilmente pela cultura. Porém tal entrada em lugar de distinção não é coisa-problema: pois a cultura é muito permissível à mobilidade social. O que não é de tão fácil mutação é o lugar que os ricos nela ocupam. Culpa cristã-católica e os apegos juvenis, e com sabor anos 60 (maio de 68, principalmente), ao igualitarismo socialista são a base desse olhar desconfiado: o pobre é bom enquanto for pobre; mobilidade social não é crime, mas a ascensão social empobrece o espírito do homem... Ao mesmo tempo que não coíbe no mundo real das leis, desencoraja no mundo ideal do moralismo/moralidade. A um alienígena causaria estranheza; a nós é familiar; é o mundo nosso de cada dia, em que o atleta aproveita e gerencia seu dia. Muitos jogadores costumam se benzer pedindo proteção quando entram em campo... deviam fazer isso ao sair.

Escolher para qual time se transferir, aproveitar e defender-se das marias-chuteira, investir em imóveis ou ações, saber gastar e guardar, tudo isso é gerenciamento de carreira. Gerenciar seu novo "eu", aquele que tanto se quis ser, é bem diferente, pois se estenderá além da curta carreira.

Independência financeira é um eufemismo: esconder a vergonha em uma capa de humildade. Qual é o problema em querer enriquecer? Será por isso que, diante da primeira proposta, os jogadores se mandam para o exterior, para um lugar qualquer, qualquer lugar, onde possam ser ricos sem culpa? Se achássemos um epicurista hoje em dia, ele provavelmente diria ser fato que, ao independerem-se financeiramente, os atletas apenas trocaram o tipo de preocupações. Antes, sobrevivência; agora, readaptação do "eu" em um mundo que dele desconfia.

É na gerência de seu lugar no mundo, de seu talento em meio à vergonha de si mesmo, de seus negócios particulares que são os negócios de todo um mundinho próximo, que o atleta se debate e não vive o seu dia. O dia torna-se noite gasta em exorcismo: enriquecer não pode, independer financeiramente pode.

Cuidar de si mesmo cuidando do outro. Palavras. Coisa no lugar de coisa. Metáfora.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h41
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GESTÃO - parte I

(do negócio, de si mesmo e do outro)

Futebol é uma metáfora de guerra, que se tornou business, regida por regras de um tempo que talvez jamais tenha existido a não ser como miragem de mundo e homem ideais, e, se assim for, um tempo natimorto. O futebol é o que é hoje por algo que aconteceu e algo que não aconteceu: sua inserção no rol dos negócios altamente lucrativos e a não adaptação de suas regras ao mundo do século XXI.

Assim, por que pessoas, na maioria dos casos, muito bem sucedidas em seus negócios privados, em suas empresas, em suas profissões liberais, não merecem em sua gestão futebolística outro adjetivo que não "incompetentes"?

Porque é um torcedor.

Um torcedor com poder.

Esta é a única diferença entre o dirigente e o torcedor da arquibancada. Para além das superfícies e vernizes tudo é pouca razão. Além do mais, que competência pode ser exigida, cobrada, no voluntarismo? Os dirigentes não são remunerados: dizem que fazem por puro altruísmo e boa vontade; atitudes essenciais caridade e na piedade, mas quem ousaria afirmar que colocá-las no currículo seria garantia inequívoca de emprego? Quem afirmaria ser misericordioso uma qualidade necessária àquele emprego de contador? As virtudes são necessárias, mas não basta ser "de bem", ser "ético", é preciso a competência do mundo dos negócios e regida pela legalidade. Pois, se a ética disser que lucro é pecado, então o humano ético não será o adequado para o mundo do futebol.

Tem sido costumeiro dizer que as tempestades emocionais do torcedor são desculpáveis simplesmente porque o torcedor é... torcedor! Mas, talvez típicas seja termo mais preciso, pois "tipificar-se" é recusar a possibilidade de mudança; é como o ator que repete o mesmo personagem, os mesmos trejeitos e maneirismos por décadas, sem perceber que o público que o aplaude é também sempre o mesmo, que envelhecem juntos presos em um passado feliz; e , no teatro, isso é terrível, pois não é arte, é o fim. É cristalizar o estádio de futebol como espaço de catarse com papéis rígidos a serem desempenhados: não há laboratório, não há caco, não há improviso, não há "arte", só um jeito único, padronizado, característico de ser torcedor. E isso é muito pouco.

De qualquer forma, deve-se condescendência ao torcedor, tanto porque a palavra não diz tudo (a categoria tem muitas subcategorias), tanto porque ele já foi muito abusado (por mídia e dirigentes, por políticos e falsos profetas), quanto porque o espaço-tempo aqui não permite escarafunchá-lo o tanto desejável, pois qualquer análise ficaria maior que este livrinho. Fica para um futuro talvez próximo.

Mas o TCP (torcedor-com-poder)... este não vai ter perdão.

Do negócio (de si mesmo): Vanitas vanitatum.

"O futebol brasileiro é mal administrado": simples e fácil demais. Descrição precisa, mas cadê a explicação?

Os TCP (torcedores-com-poder) em seus negócios particulares, em suas empresas de renome no mercado, não permitem sequer que uma empresa tenha um nome muito parecido com o seu pois isso é concorrência desleal, no entanto, toleram que grupos chamados de "torcidas organizadas’ usem o nome do clube durante suas badernas. Dizer que a violência desses grupos é unicamente um problema de polícia é fugir do problema, coisa inadmissível na gestão empresarial: se há alguém ou algo denegrindo a imagem da empresa, imediatamente o departamento jurídico é acionado. Mas os clubes nada fazem. Por que? A investigação das relações espúrias entre estes TCP e os torcedores-que-se-iludem-de-ter-poder precisa de muitas e mais investigações profundas.

Em tempo: não confundir o campo de ação jurídica-policial do Estado (prevenção, repressão e punição) com o campo das ações econômicas do clube de futebol. Não é tarefa do clube vigiar e punir, mas é obrigatório não se misturar.

Os TCP, no caso da torcidas organizadas, agem com relaxada permissividade, como se isso estivesse acontecendo com uma outra empresa qualquer; no entanto, todo relaxamento, toda boa vontade desaparece quando um jogador pede aumento de salário: neste momento agem como se atender tal pedido fosse endividar a empresa de forma que a falência seria resultado certo. Isto é poder: decidir quando e como agir. Esta á a dupla face que pode explicar tudo. Num momento, leniente e distraído, no outro férreo e focado. É necessário lembrar que tal duplicidade é inadmissível na administração empresarial, seja em mundo capitalista ou socialista? Que tal procedimento é punido com rigor?

Um exemplo de gestão: a cada início de temporada os atletas voam para locais mais amenos e os empresários/procuradores são a praga que os leva. Mas, se as "pragas" se repetem todo início de temporada, como é possível, depois de tanta repetição, ainda não perceber a inexistência de qualquer excepcionalidade? Se a praga já é esperada, então já é safra e entressafra; assim, já não é tempo de se acostumar e lidar com esse semblante da propícia estação? Se é sabido que os gafanhotos chegam na primeira semana do verão, por que na última semana do inverno tudo que pode ser feito é sentar e chorar por toda a primavera? Sentar-se no confortável corriqueiro, apenas exaltando a própria incapacidade, é denegrir a infinita capacidade do humano em se adaptar. Capacidade essa que nos leva a sobreviver em qualquer ambiente deste planeta: única espécie a conseguir isso. E isto não é elogio: é constatação; portanto, evitar a adaptação é crime contra a humanidade, é querer o passado feliz sempre presente. É neurose, como diria um psicanalista.

Outro exemplo: nos sete ou seis últimos jogos da temporada o jogador Zé começa a jogar "bem": chuta a bola que bate no morrinho-artilheiro e entra; está lá paradão na área quando a bola bate-lhe no calcanhar e mais um golaço; apertado pela marcação, sem tempo nem espaço, chuta para o gol a bola da qual deseja e precisa se livrar e mais um golaço; dá uma caneta no zagueiro, um chapéu no outro, toca por cima na saída do goleiro, outro golaço; e por aí afora jogando um bolão. Clubes estrangeiros, é claro, crescem o olho. Craque ou fase? Quem sabe, pode ser, vai saber... Mas o clube tem pretensões para a próxima temporada, por isso apressa-se em renovar o contrato de Zé, pois confia que ele jogará "bem". Craque ou fase? Mas, esperança dura sempre pouco, Zé não joga bem. Contusão e/ou fim de fase, tanto faz. O fato é que, fosse a pretensão conseguir títulos ou melhores colocações ou fosse negociar Zé com o exterior por um valor maior ou, com Zé, negociar melhores contratos de TV ou patrocínio, o clube não tem um substituto, nem á altura, nem abaixo, em seu elenco. Confiando na fase ou na craqueza de Zé o clube não estabeleceu um plano B. Confiou em Zé, sem perceber que talvez Zé não fosse confiável ou que não se deve confiar apenas nas próprias esperanças no mundo dos negócios. É admissível que uma empresa leve cinco anos para perceber, compreender e repetir os procedimentos lucrativos da concorrência. Não. Cinco anos no competitivo mundo contemporâneo não é tempo suficiente para uma falência: é tempo mais do que suficiente para ter a falência executada, os bens leiloados, os gestores responsabilizados civil e, se necessário, criminalmente. Mas é exatamente isto que ocorre no futebol brasileiro dos pontos corridos; cinco anos mostrando por completo a incompetência administrativa destes tão bem sucedidos empresários. Claro que há algo errado aqui: ou estes homens não são empresários tão bem sucedidos (seu sucesso particular pode ser devido a outros fatores, logo, o lucro e o aumento de patrimônio não bastam para estabelecer uma razão direta entre sucesso e competência) ou, ao entrarem no futebol, o espírito da incompetência lhes entra de imediato nos corpos.

Último (o mais risível): o time começa a perder, o técnico é demitido, um novo técnico é contratado, o time continua a perder, o novo técnico é demitido, o técnico antigo é recontratado. Claro que há erro: ou na demissão ou na recontratação, mas o que importa é que os dois atos foram feitos pelo mesmo TCP. É isto admissível em uma empresa? Uma vez, pode ser. Porém, os TCP vivem a repetir esses feitos.

A descrição acima não é uma ficção, não é uma excepcionalidade: só no Campeonato Brasileiro de 2007 dois clubes (Botafogo e Internacional) fizeram isso. Em uma empresa não basta apenas aprender com os próprios erros: é imperativo aprender com os erros dos outros. E se foi o técnico quem pediu demissão? Isto é irrelevante. O que importa é que houve erro ao aceitar a demissão ou na readmissão, e dizer que houve "reparação de uma injustiça" é piada. Pois, se for mesmo uma "reparação", de que adiantaria já que o homem justo (o reparado) ainda conviverá com o injusto (o reparador, suposto)? Que justiça pode haver quando, sendo o justo reparado, o injusto não é punido? Ou já não é bem sabido que o injusto, não punido, pode cometer novas injustiças, mais ainda quando é um TCP? Transfira-se o exemplo para uma fábrica e vejamos se após esse festival de erros os operários não perderão a confiança no diretor que brinca dessa maneira com o cargo de supervisor de fábrica. A confiança poderá ser restaurada, sem dúvida, mas não sem custo desnecessário.

Mas, catalogar todas as patacoadas, incompetências e falcatruas dos TCP é um muito e um pouco. Muito, porque são tantas; pouco, porque o conjunto mostra a mesma coisa: são um todo cujo estudo de cada parte isolada conduz sempre ao mesmo lugar. Não percamos muito tempo com a semiologia da afecção, o jogo da sintomatologia, o detalhismo descritivo: o "mundo" do futebol tem seu próprio submundo e os TCP o conhecem muito bem; não se animam a destituí-lo de seu local privilegiado, ao contrário, aprendem a usá-lo e glorificam esta "esperteza".

Dizer que os TCP são amadores, descrever como administram muito mal o produto, falar que parecem nem sequer saber fazer contas é dizer pouco. Ou será que o pouco que se diz é resultado de um todo escondido, trancado, trancafiado, pelos TCP? Será que só é possível dizer pouco, pois pouco é mostrado, pouco é sabido? Será que os TCP escondem muito mais até que possa ser imaginado por nós, tristes amantes do futebol? Será que, como na república romana, o "caminho honrado" é uma armadilha a prender de forma incoercível o homem a um modo mais amplo, mais antigo, mais entranhado numa cultura, a cultura que não pode viver sem algum tipo de escravidão? Uma preensão que se justifica a si mesma pelo poder que encerra?

Os clubes brasileiros são entidades de direito privado com estatutos permissíveis ao exercício de uma política calcada mais na longevidade que na excelência. O presidente de um clube deve percorrer uma série de cargos e pequenos poderes exercidos seqüencialmente em um tempo mais ou menos predeterminado, uma coleção de honrarias que capacitam (ou deveriam capacitar) o indivíduo ao cargo máximo. Nada mal, pois a República Romana também prezava esse princípio de aprendizado por continuidade. Mas, como os romanos descobriram amargamente, o método torna se maior que os objetivos. Vale mais quem cumpre as tarefas, mesmo sem nada ter aprendido. Assim, a armadilha se fecha. A República cai, pois não foi visto que o método é apenas forma de aprendizado do jogo político dos conchavos, não da Política (estudo dos meios de governar/administrar). Exemplo: os clubes consideram-se "democráticos" por realizarem eleições a prazos fixos, mas o que é uma democracia onde o mesmo nome se eterniza no poder mesmo com eleições? Democracia sem alternância de poder é ditadura.

Essa vida inadequada do TCP se sustenta no poder incontrolado a seu dispor. As patacoadas no mundo dos negócios são coibidas pelo fantasma do prejuízo. O balancete é implacável. A retórica histriônica, a autopromoção das ações vazias, as declarações bombásticas, a bazófia nas vitórias, a autocomiseração nas derrotas, de nada valem. Mas quando isso é aplicado ao futebol... a torcida vibra.

Mas o poder incontrolado do continuísmo, da ausência democrática de alternância de poder, tem um poderoso financiador: um passado inteiro a glorificar e justificar esse exercício de ostentação de si mesmo, esse gosto em ser especial, em ser TCP. O futebol não é um mundo à parte, embora alguns queiram e muitos creiam que seja assim. O futebol não está isento do mundo e de suas mazelas. Dessa forma, se há um passado desprezível a reger os caminhos da política brasileira, assim é também com o futebol. Ou seja, muito trabalho à frente. Muita marreta a derrubar, muita vassoura a varrer.

O futebol é um espaço onde o TCP exala-se sem restrições, sem coerções, é espaço isento da razão. Ora, então haveria uma ludicidade aqui? O futebol seria uma brincadeira para si mesmo e consigo mesmo? Um exercício personalístico? Uma propriedade, uma posse? Um feudo destinado a ser picadeiro de uma expressão pouco tolerada nas outras horas do dia: a expressão irrefreada de si mesmo. Os TCP jogam no ar que seu "bom-mocismo" não-remunerado (um cartão de visitas, e só) é suficiente para gerência de clubes. Mas a única "gestão" é desfrutar de si mesmo sem preocupações com o futuro.

Eis o imperdoável em sua face mais clara: os TCP querem o futebol preso ás suas fantasias infantis de poder, assim como os organismos gestores do futebol prendem-no em um passado idílico, em um ilusão de poder.

A salvação do futebol não é o clube-empresa: os clubes já são empresas. Só que mal geridas e buscando não o lucro monetário, mas um de outro tipo, de uma outra face mais pessoal que política. Clube-empresa e/ou separação do futebol do social não é salvação: é passo natural que só a preensão ao passado segura.

O grande negócio de si mesmo: um pé na vaidade, outro no totalitarismo. Arremedo de direção. Uma mão segura as correntes, outra o espelho. Coisas no lugar de coisas. Metáforas.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h39
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IDENTIDADE NACIONAL (mirando o melhor de nós)

Dizer que o futebol "mexe com a paixão" embora pareça dizer tudo, diz muito pouco, pois é comum demais. Paixão "mexe" com tudo que é do humano e é "mexida" por tudo que é do humano; é condição, não início e fim; por isso, claro, é muito, pois fala do muito que é a vida, mas se não existisse o futebol ainda seríamos apaixonados, não é? Como muitos povos que se apaixonam por tantas outras coisas.

Para nós, brasileiros, o futebol é muito mais fundo que uma expressão apaixonada; está inscrito naquilo que somos e não poderíamos deixar de ser mesmo que assim quiséssemos. Está na linguagem que fervilha e comunica com precisão admirável em expressões oriundas do jogo, embora muitos (eruditos) as odeiem enquanto se esquecem que a língua/linguagem não lhes pertence.

É na eficiência comunicativa que está a chave. Por ligar tão facilmente um humano a outro (e ao humano dos dois) é que se pode ver que, sem o futebol, seríamos qualquer coisa, menos brasileiros, para bom gosto de nossos próceres intelectuais adoradores de um filósofo alemão ou francês – escolha um, qualquer um, tanto faz - e que odeiam o simplório futebol, perdidos em seus devaneios de um dia formar, construir em coerência com o mito do grande brasileiro culto, aquele que saberá tudo do mundo que o cerca, mas nada sabendo de si mesmo. Mas talvez estejamos esquecendo: "existem coisas mais importantes a cuidar que futebol!". Talvez sim, talvez não, mas sempre apenas talvez...

Enquanto isso, enquanto cuidamos das coisas realmente importantes esquecemos de que já foi percebido que, durante o período da Copa do Mundo, o Brasil (quase, talvez) pensa a si mesmo como nação; em que parece haver unificação e um partilhar de um objetivo e destino comuns; enquanto isso, deixe-se o futebol cumprir seu papel circense, pois os grandes homens estão (?) ocupados com o pão... Deixemo-lo em segundo, ou terceiro, talvez quarto, plano. Deixemos de pensar em algo que só acontece a cada quatro anos e que faz o que nada mais faz. Não deve ser importante mesmo...

Quantos milhares de expressões futebolísticas é necessário listar quando basta uma (única, sozinha, poderosa) para ver que, uma vez estando na língua/linguagem, dela não sairá jamais: "ela não me dá bola"?...

Neste momento, uma afirmação necessária, imperiosa: língua/linguagem é cultura. Na comunicação tudo aquilo que um povo é. Tudo que é cultura está no idioma (embora não necessariamente no dicionário, pois este é filho do gramático e não do povo que usa a língua em seu fundamento único: comunicação; o resto é anagrama a satisfazer os cultos normalistas). E cultura, esta entidade humana, mais do que um conceito, respira e se reproduz, enquanto amealha coisas e deixa coisas para trás, enquanto aumenta e diminui de tamanho. Ela vive, não sendo unicamente o que já foi dito dela, mas, fundamental, o que ainda está por se dizer.

Pressuposição inevitável, pois o espaço-tempo exige, não permite que este livrinho vire tratado de milhar de páginas impressas com letras miúdas. Tudo a seu tempo: por enquanto, basta reter que linguagem, capacidade sofisticada e particular de comunicação, é o melhor instrumento de ligação entre a experiência acumulada e o desejo, entre o passado e o futuro, entre as necessidades da espécie e o que há de mais humano no humano.

Mas por que o futebol tatuou-se, ou foi tatuado, na língua? Antigos intelectuais nacionalistas/modernistas o detestavam (e este é apenas mais argumento a provar que a cultura não lhes pertence). Futebol nada sendo além de vagabundagem era a conotação primeira quando se revelava o que o distinto rapaz fazia da vida.

O percurso da inscrição na língua/linguagem é longo, repleto de marcos, com causas múltiplas e inter-relacionadas. Não houve data e hora precisas desse nascimento. E talvez não só o binômio genético-social, o quadril dançante do negro/mulato e as táticas de sobrevivência do pobre. Lenta, insinuante e inevitável como queda de folha seca, o futebol foi inscrito na identidade do brasileiro. O discurso o mostra, só não ouve quem não quer.

Por ser uma tão admirável metáfora de guerra teria o futebol satisfeito uma necessidade não de guerrear (porque pouco fizemos isso), mas de transformar a energia da destruição em algo mais construtivo, mais sublime? Não produzimos arte e ciência em grau e intensidade suficientes para enganar o instinto e por isso o agraciamos com um jeito diferente de guerra? É esta a guerra que sempre sonhamos ganhar?

A melhor parte de nós afrontando o dominador estrangeiro: a malícia do negro/pobre vencendo o branco/rico? Uma parte da identidade nacional realizando uma fantasia de potência: o malandro que não apenas engana o otário, mas que vence o poder constituído (a regra que não coíbe adequadamente a falta) que tenta lhe tolher a possibilidade de mudança social?

Está na política (um apartado governo de, para e por excluídos)? É na Sócio-Economia? Psicologia? Antropologia? Tudo isso? E mais um pouco. Onde realmente começa? Seguramente não nas vitórias: estas são confirmações, referendos, assertivas posteriores, são resultado.

Não sabemos porque é assim. Simplesmente sabemos que assim é. Talvez algum dia possamos descobrir, porém, por enquanto, é neste ser atual que coisas podem ser feitas.

Tudo que sabemos é que neste país ninguém é sem o futebol. Ninguém por aqui lhe é indiferente, pois a indiferença não é dizer que "a mim o futebol não fede, nem cheira"; porque ter o futebol como referência para a definição de si mesmo (alguém a quem o futebol não fede, nem cheira) é admitir, mesmo a inconsciente contragosto, que não se é alguém, nesta cultura, sem o futebol como parâmetro comparativo (é preciso cheirar para saber que não há cheiro algum).

Quando alguém fala que adora futebol, quando alguém fala que odeia futebol e, principalmente, quando alguém fala que nuntônenhaí para o futebol, alguém está dizendo que não pode fugir dele, que não pode evitá-lo como referência ao emitir uma opinião, e já que tais opiniões são sobre o si-mesmo, e este, por mais que tente, não consegue fugir de si mesmo, então o si-mesmo brasileiro não pode fugir do futebol.

Podemos gostar ou não de futebol, podemos até mesmo tentar a indiferença ("nem fedendo, nem cheirando"), mas indiferente só será aquele que, inserido na cultura e usuário da língua, nunca tiver usado uma metáfora futebolística e não tiver sido tentado tanto a criticar seu uso, quanto a desvalorizá-las recusando a utilização dessas fórmulas maravilhosas de comunicação instantânea.

Obviamente, pode-se notar que os que odeiam futebol apenas trocam o afeto mas não o sentido da energia: bem-querer e mal-querer apenas exprimem o tipo, mas não a essência da relação com um dos totens formadores da identidade brasileira, um monolito imantado a nos atrair sem piedade. Sem o futebol seríamos brasileiros, sem dúvida, porém tão diferentes que não nos reconheceríamos no espelho.

Mas que bicho é essa tal de identidade?

Identidade é aquilo que o indivíduo não abre mão em hipótese alguma, pois se o fizer permitirá que seu nome seja levado pela primeira e leve brisa. Mais ou menos como algo entre a ideologia (o que o sujeito glorifica de si mesmo) e a essência (aquilo que o sujeito nem sabe de si mesmo); a ideologia é construída pelo indivíduo (com uma boa dose de ajuda da sociedade, é claro), a essência o precede. O indivíduo abrirá mão de sua ideologia quando lhe for conveniente (quando esta não mais tiver serventia para a autoglorificação), enquanto que da essência não é possível sequer pensar nisso. Mas não abrir mão da identidade é uma recusa a evitar a dissolução, o desaparecimento. É favor não confundir as vergonhas, os disfarces, as negações oportunistas de si mesmo como atos contra a identidade: são suas reafirmações apenas protegidas por mecanismos de defesa.

Identidade é aquilo que permanece idêntico com o passar do tempo; é uma coleção de aquisições, são várias peças do quebra-cabeças a compor o quadro geral; peças nascidas no próprio indivíduo, outras dadas-lhe pelo ambiente. Uma delas chama-se futebol e, como as demais, uma vez encaixada no local certo não descola mais. Não se sabe bem qual foi o sábio que disse, mas que a frase é verdadeira, isso é: "o brasileiro troca de mulher, de religião, credo político, sistema sócio-econômico, opção sexual, até de sexo, mas nunca de time de futebol."

Mera coincidência?

Pode ser.

Quem se arrisca?

Talvez ajude uma pequena tentativa de esmiuçar como se escolhe um clube para torcer. A escolha clubista se dá ao redor de três pilares: continuidade/descontinuidade familiar, chamado da vitória e clamor da maioria. Da família seguiremos ou não a opção parental tomando o exemplo de outras escolhas já feitas. Grosseiramente, se a relação com o pai é "boa", portanto, um modelo a ser imitado, a sua opção de clube será seguida; claro que este exemplo é do tipo linear, direto; o processo às vezes não é tão simples assim. Basta entender que a relação parental é a primeira referência, é só depois dela que as outras adquirem relevância ou não: se a opção for pela continuidade familiar, as outras nem sequer entram em cena. Mas, se descontinuidade for a escolha, as outras farão ouvir suas vozes. Pode-se escolher o time que seja o vencedor do momento, aquele que esteja ganhando mais títulos no passado mais recente, que está surrando inapelavelmente os rivais, ou seja, a afiliação a uma identidade diferenciada pela vitória e seu chamado sedutor; pode-se escolher o time que tiver o maior número de seguidores, no universo – restrito ou largo, do bairro ou cidade, estado ou país – em que o indivíduo está mais imediatamente inserido, ou seja, a afiliação a uma identidade diferenciada pelo tamanho do grupo e seu clamor tonitruante. Pertencer à maioria ou aos vitoriosos, mas não necessariamente com a exclusividade deste ou daquele parâmetro: as combinações podem ser várias.

A relação que o torcedor estabelece com seu "clube do coração" vai além daquela que se tem com um entretenimento; pois, do, contrário, o período de vinte e quatro anos sem que a Seleção Brasileira ganhasse títulos mundiais seria mais que suficiente para desfazer esse gosto (e há clubes que ficaram tanto ou mais tempo em jejum). Um entretenimento é facilmente descartado quando deixa de cumprir sua função primeira. Quem é que troca de time?

Porém, o intuito aqui não é elencar todas as peças da identidade e suas possíveis combinações, nem descrever a intensidade do brilho de uma ou outra (é isto que faz com que o sujeito se diferencie, embora nunca a ponto de descaracterizar-se e deixar de ser membro da comunidade), muito menos entrar no labirinto do entroncamento entre identidade pessoal e identidade social (a separação sugerida pelos dois termos é mera licença teórica: estudar em partes o todo, pois não há "eu" que não tenha partes de outros "eus" – família, escola, turma de rua, time do bairro; sendo assim jamais indiferenciado o suficiente para justificar tal separação). A questão aqui é o porquê desse olhar desgostoso para si mesmo.

Claro que este país não é só futebol, claro que muitas vezes cada um de nós, ao se definir, não recorre necessariamente ao futebol, claro que futebol não é o mais importante (embora também não seja o menos), claro que futebol não é a única coisa importante, mas por que nos envergonharmos de sermos referidos "lá fora" como o país do futebol? Por que se envergonhar daquilo que é uma das muitas partes do que somos? Se sentimos vergonha disso, por que não haveríamos sentir vergonha de tudo mais, como uma boa colônia curvada ao ideal de erudição da metrópole? Só podemos envergonharmo-nos de ser o país do futebol se o próprio futebol for muito vergonhoso, pois assim ser não inviabiliza ser tantas outras coisas: se queremos ser o país da poesia, o país da ciência, então devemos começar a trabalhar mais duro do que fizemos até agora.

Sendo o futebol tão importante para nós (mesmo que, por processo inconsciente, muito mal saibamos disso) por que o tratamos tão mal? Por que tanto descaso e desdém, por que tanto olhar atravessado? Por ser arte do corpo e não da mente? Seria possível tamanho preconceito e tanta ignorância? Tanto pensamento de que aquilo, que sempre esteve e estará junto, possa ser separado? Isto seria ignorância. Ou, por não necessitar de curso, título e anel de doutor, não é atividade digna de um humano "de bem"? Isto seria preconceito; o qual, aliás, nada surpreendente nesta terra onde gente que nunca defendeu tese de doutorado é chamada de doutor por causa de um costume arcaico e defensor da separação entre os homens: igualdade só entre os que já nasceram iguais (uma moral, moralidade, moralismo).

Se o futebol é peça tão importante quanto qualquer outra na construção de um caráter brasileiro (sim, existe isso; ou, pelo menos, deve existir, senão é impossível explicar a existência de tanto douto livro sobre o duo formação/estruturação do binômio cultura/civilização brasileira), por que tanto desconfiamos dele?

Damos tanto espaço a nossos políticos como se, na essência, naquilo que realmente importa, fossem diferentes daqueles da antiga Roma, como se acreditássemos mesmo que verniz novo salva porta velha...

O fato é que, são poucos os doutos desta terra que se ocupam dele; e havendo tanto a se fazer. Por isso é que está mais do que na hora de virar esse jogo. O futebol não é uma das formas de expressão da brasilidade (seja lá que diabo possa ser isso), a brasilidade é que não pode ser expressa sem ter o futebol dentro dela mesma.

"Ela(e) não me dá bola..." O futebol descrevendo o relacionamento afetivo-sexual, a vivência da exclusão, a solidão do poeta, o desejo, a frustração, a metáfora. Eis a paixão.

Alguém ainda quer dizer que não somos um povo futebolístico?

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h17
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HISTÓRIA (metáfora histórica) - parte II

O futebol, se não é cada vez mais popular, com certeza continua tão popular quanto sempre foi. E os empates em 0 a 0, os 1 a 0, continuam a aumentar. Haveria uma relação inversa? Quanto menor o número de metas atingidas (goals) maior a popularidade? Ou, mais simples, esta se assenta em algo, uma essência "futebolística", que independe da quantidade de gols?

É este o mistério do futebol?

Será que os motivos que o fazem querido em um país são os mesmos para qualquer outro país? Seria a "boa" imagem dos ingleses, imperialmente poderosa e erudita, motivo suficiente para copiar-lhes os hábitos e os prazeres? Motivo "suficiente" ou motivo principal?

Mais perguntas que respostas, até porque os ingleses não foram bem-queridos em todos os lugares nos quais estiveram; e mesmo onde estiveram maciçamente (Médio e Extremo Oriente, Sudeste Asiático, Oceania) o futebol não produziu qualquer excelência.

Nem simples, nem imutável; não é nessa mitologia altamente propagandeada por FIFA/IFAB que se poderá encontrar a popularidade do futebol, nem tampouco no brilho dos costumes e entretenimentos de seus codificadores/inventores. Até porque, se o sol inglês não mais brilha, não há porque idolatrá-lo/copiá-lo, a não ser que... uma imagem feliz de império tenha se entranhado tão fortemente nas mentalidades que passou a ser peça inamovível da identidade cultural dos povos abençoados pelo toque civilizador do Império.

Seria possível que aceitamos tão docemente o controle férreo sobre a regra porque, do contrário, estaríamos atentando contra nós mesmos, contra aquilo que é parte de nós, será que o futebol estão tão marcado dentro de nós que mudar a regra é mudar a nós mesmos?

Nesse caso... os ingleses conseguiram: o sol ainda brilha. Realmente não há porque mudar a regra.

O tempo agora é outro: não mais didatismo de uma classe social, não mais diversão de outras classes, não mais instrumento de difusão de uma ideologia, não mais apenas competição intra/inter-países, mas business. E aqui, neste terreno onde tempo é valor, perder não é mais um aprendizado, uma vergonha para si, para o time, para uma pátria; agora, perder é impensável: compromete-se o futuro.

Mas, se mudaram os valores, a regra ainda é a mesma.

Há muito os anglo-saxões deixaram de ser os melhores na sua execução, mas ainda detêm o último e derradeiro poder: o poder da lei que só obedece a si mesma, a seu instinto de autopreservação: a mudança das regras seria o fim definitivo do império. Medo da sua realeza desnuda que as suas crianças mostram: isso é imperialismo. Manutenção de si mesmo. Uma coisa, coisa qualquer, no lugar do grande império. Metáfora.

Os organismos mundiais gestores do futebol têm-no por estátua: algo inamovível e imutável. Os pequenos ajustes de enunciados das regras, as orientações e pequenas proibições são correções sempre atrasadas (goleiros proibidos de usar as mãos em bolas recuadas com os pés por jogador do mesmo time, restrição ao "carrinho", etc.): desde os anos 70 (talvez antes) havia reclamações sobre a "cera" dos goleiros e a "mudança" só veio mais de vinte anos depois. Tais pequenas atitudes só aparecem após muita reclamação e acidentes; a baixa eficácia da tranca na porta já arrombada. Além do mais, analisando um só exemplo, pode-se ver que há pouco interesse em aumentar o número de gols, embora a propaganda diga o contrário: a intervenção, no caso do recuo de bola para o goleiro, "age" em atos que ocorrem no campo de defesa do time com a posse da bola, quer dizer, produz real dinamismo (como insiste a propaganda) mas não necessariamente produz mais gols.

Mas, seguindo o exemplo dos pombos, sabemos muito bem para que, ao longo do tempo, servem as estátuas: aeroporto e banheiro. A separação inicial foi clara: FIFA cuida do corpo, IFAB da mente. As metáforas podem ser as mais variadas: existência e essência, belo e feio, culto e ignorante, etc., não importa qual; a dicotomia, a cisão, é clara e é nesta muito mal pensada repetição de antigos comportamentos e pensares, procedimentos adquiridos na infância do futebol. Se o adulto é a criança que um dia foi, como já disse um sábio, então o futebol ainda retém uma "pedagogia": deve ser "ensinado" (os gestores da regra sabem o que é necessário, pois o futebol é incapaz de gerir a si mesmo).

Se rotineiramente tivéssemos visto jogos com placares elevados (10 a 9) durante o último século, haveria tolerância (expressa no esforço dos argumentos abundantes a favor da "dificuldade do jogo", "da igualação na preparação física", "da globalização do mundo que leva a informação a todos os cantos") com a esplendorosa mediocridade que faz duas Copas do Mundo terminarem em detestáveis empates, e um deles por 0 a 0? Estamos tão bem doutrinados, tão bem adestrados, que achamos isso "normal"? Foi este o tremendo estrago que uma ilusão de manutenção de poder nos fez? Se o torcedor não "vibrará" tanto com esses placares elevados? Talvez sim; estamos tão acostumados, fomos tão adestrados, adquirimos este "gosto" tão fortemente, fomos tão ensinados a "vibrar" com horrorosos 1 a 0 que realmente poderemos não "vibrar" com mais nada além disso...

Claro que não é possível querer o futebol como foi jogado a até quarenta anos atrás (talvez um pouco mais, talvez menos); seria contrariedade à sua evolução. Mas por que nos impedirmos de desejar um futebol evoluído (o contemporâneo da coisa) com a profusão de gols de sua origem (o clássico da coisa)? Por que não o melhor de ambos os mundos? Não, não é impossível ter excelência física, exuberância técnica e inteligência tática, tudo isso em um divino 10 a 9. Basta renunciar a esse crença preguiçosa de que os gols só surgem quando aparece um grande jogador, que os gols são fruto exclusivo do talento.

Seguramente um daqueles jovens de Cambridge não reconheceria este esporte como a deliciosa atividade daquelas tardes brumosas, e não isto seria pelas diferenças tático-técnicas, mas simplesmente porque veria o objetivo não ser atingido e quedaria triste por ter visto tal futuro, embora feliz por não ter que jogar futebol nele.

Mas temos o direito de tanto rigor? Nós, brasileiros, criadores e grandes mestres da capoeira, aceitaríamos que outros povos exigissem, mesmo que munidos de grandiosos argumentos, mudanças na forma de praticá-la? Mesmo que tais argumentos visassem a levá-la a lugares, a alturas, que nós jamais conseguiríamos levá-la? Mesmo que tais argumentos visassem adaptá-la aos novos tempos, a evolui-la, a torná-la melhor, mais forte e tão bela quanto era no início? Mesmo que não se propusesse alteração da regra, mas da mentalidade que a vê como algo inamovível? Mesmo que tudo que se pedisse fosse uma maior celeridade na percepção da mudança, nos "estudos" das sugestões, na implantação desses pequenos reajustes?

Pois tudo que se pede não é qualquer fortíssima alteração das regras, mas tão-somente reajustes que não deixem mais que esta metáfora de guerra seja mundo à parte do mundo, que seja parte do mundo, que esteja junto a nós, pobres humanos, em um mundo muito real e nos oferecendo aquilo tudo que já nos deu um dia, em uma tarde brumosa e úmida.

Muitíssimo improvável.

Mas isto não responde tudo, não é? Apenas prova que o humano é o mesmo em qualquer tempo e espaço. Inclusive nos seus erros.

Ilusões são poderosas, a História o mostra. Tanto quanto ensina que o criador nem sempre é maior que a criatura. Tanto quanto a desilusão terrível de ver um poder escorrer entre os dedos. Como o poderio anglo-saxão do século XIX. Sombras do que se foi e jamais voltará. Tentativa desesperada de fazer o sol ainda brilhar. Ideal no lugar do real. Coisa no lugar de coisa. Metáfora.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h09
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HISTÓRIA (metáfora histórica)- parte I

"Nosso time venceu por 1 a 0 e a torcida vibrou...", diz a música. Vibrou por que o 1 a 0 foi expressão da igualdade dos times, dificuldade da vitória, ou porque nos ensinaram que 1 a 0 é resultado normal do futebol? Se for igualdade/dificuldade, então o futebol não é só o esporte mais praticado, é o esporte onde o ideal socialista se fez realidade: tudo muito igual.

No início era 10 a 9, 11 a 8, 7 a 5, placares comuns em jogos de futebol. Hoje, 10 a 9 é sinal do incomum marcado por mediocridade ou amadorismo. Em jogos profissionais, o 10 a 9 é impossibilidade, é passado, é sonho, enquanto 1 a 0 é elogiável como futebol normal. E é mesmo: a evolução tática/física explica perfeitamente sem deixar espaço para demérito.

O problema não está no que acontece, no que é corriqueiro, mas em dizer que o futebol nada mudou. E se o dizer é o crer, se o que o homem diz é o que o homem crê (sem espaço para falseamentos), então devemos crer que os relatos de placares como os citados são mentiras? Se nada mudou, como tais placares eram possíveis? Como seria possível tal permissividade, quase promíscua, de realização de tantos objetivos (goals)? O futebol evoluiu, é a resposta primeira e pronta, e sempre esquecendo que evolução é mudança. Na verdade, é uma parte pelo todo: a regra mudou pouco, o futebol muito. É figura de linguagem muito mal utilizada: a regra é parte (importante, sem dúvida), não todo. Se a regra organiza, ela não define. Essa manutenção da organização tem um sentido: camisa-de-força no humano. Ilusão, portanto.

Na origem de toda ilusão a busca de satisfação duradoura. É assim que o futebol nasce como pedagogia nas tardes brumosas e úmidas que recobriam os gramados da venerável Cambridge de meados do século XIX.

E é cabível falar em nascimento pois, agora com regras, há diferenciação das batalhas campais comemorativas do passado e, por isso mesmo, já nasce metáfora, coisa no lugar de coisa.

Não pode haver dúvida: como na Grécia antiga, é guerra no lugar de guerra, seja em Eton, Cambridge ou Winchester... Epa! "Eton, Cambridge ou Winchester..."? Mas então estamos falando do supra-sumo do mundo e do homem! Não poderia haver melhor certidão de nascimento: nobreza. E naquele conturbado século o que foi a nobreza inglesa, a nobreza de terra nunca conquistada por estrangeiros, se não a mais nobre de todas? O futebol foi criado/regrado para ensinar o melhor que poderia ser ensinado e, ao se popularizar, ensinar o melhor aos não bem-nascidos. Nada pode ser à-toa: dez jogadores e um capitão em cada time, dez alunos e um bedel em cada turma. Cambridge vive eternamente no futebol.

Em Cambridge, naquelas brumosas tardes, os jovens jogam futebol para cimentar companheirismo, disciplina, lealdade, dedicação, honestidade, enquanto suam os excessos da testosterona juvenil. Gastar a energia em coisa mais aproveitável. Deslocamento de uma coisa para outra coisa. Coisa no lugar de coisa. Metáfora. Naquelas úmidas tardes não se joga para ganhar; isto é o resultado obtido por quem dá o melhor de si. Joga-se para consolidar uma imagem da perfeição de si mesmo.

A pedagogia primordial: o melhor deve vencer; um aprendizado de aceitação do destino de cada um, do local social, da compreensão das diferenças entre os humanos, da aceitação de si mesmo e do outro como se é, para em conjunto ter força imbatível. Uma metáfora de guerra com claras funções educacionais: disciplinar o furor da juventude para, assim, transformá-lo em ideal adulto. Preparação para a guerra.

(Mas não um total novo: o mundo greco-latino já reservava locais – só aos bem-nascidos – para transmissão de valores ético-morais através dos exercícios; forma de socialização ainda usada, principalmente por esportes coletivos – a idéia de grupo é fundamental).

Depois de tão glorioso nascer, o futebol torna-se veículo de propagação dos valores superiores da cultura anglo-saxã. É o nobre esporte bretão. Nobre e bretão são as palavras-chave. Os demais (a FIFA) somente são tolerados sob os ditames do IFAB (International Football Association Board), ilusão de controle que consegue manter a mão sobre a regra, nunca sobre o jogo: a decepção com o English Team, na Copa de 50, é retumbante.

Então, eis que o futebol voa além da venerável grama dos colégios ingleses para ser bem-visto, e muito benquisto, em todas as castas (são os tempos imediatamente posteriores à Revolução Industrial e ao nascimento de uma classe operária diferenciada; assim, talvez, regras menos "violentas" que as do Rugby, que permitissem aos operários trabalharem no dia seguinte, não seja mera coincidência...). E houvesse um inglês, ou onde o Reino Unido tivesse interesses, uma bola de couro rolava em gramas não tão veneráveis. Estratégia imperial de dominação cultural? Pode ser. Mas já aconteceu e hoje, diante de tanta popularidade, é impossível reverter. Hoje é negócio. A metáfora se encorpa: o melhor negócio da guerra é a própria guerra.

Por isso é que a questão não é se a regra é boa, má, certa, errada, bela ou feia; a questão é que não representa mais o futebol, pois foi feita para permitir que o 10 a 9 fosse rotina e não exceção. É isso que a regra é: uma reminiscência, pois não houve adaptação para permitir que o 10 a 9 fosse constante. Presa em uma particular imagem de mundo, uma ilusão de imutabilidade, foi atropelada pelo mundo: 10 a 9 é expressão de mediocridade e não mais o corriqueiro, o normal, o lúdico, o ensinamento.

A ligação entre presente e passado feita apenas pela imutabilidade da regra mas tão-somente nisto e nada mais. O jogo há muito não é mais o mesmo. Se o futebol hoje está cheio de 1 a 0, se está farto de finais de Copas do Mundo terminadas em 0 a 0, não é por causa de sua evolução, mas graças ao espírito das regras que não acompanharam tal evolução. Pois fazer mudanças constantes, adaptações evolutivas, seria transferir o poder das mãos do criador para os pés da criatura, seria abdicar da ilusão, seria libertar o filho dos grilhões e crescer junto com ele.

É este desejo de dogmática imobilidade que estraga tudo: o futebol, o jogo (aquilo que se faz dentro das quatro linhas e que é feito nas suas proximidades: o trabalho da comissão técnica) teve uma evolução natural, forjada nas necessidades de um mundo nunca estático, na mudança de tom da metáfora. A conseqüência imediata, os empates, os 1 a 0, eram o esperado.

O inesperado ficou por parte da regra: nada fazendo para que os educativos e lúdicos 10 a 9 continuassem florescendo, que continuassem a ser naturalidade e não excrescência. E isto é imperdoável.

Mas a regra do futebol têm mesmo este caráter imobilizado, esta cara de estátua? Ou coisas, ainda que pequenas, aconteceram? Ou uma coisa grande aconteceu e a atenção adequada não lhe foi dada?

O apoio para a pouca mudança nas regras, enquanto o futebol evoluía tática, física e tecnicamente e com a quantidade de gols minguando, sempre foi a sua popularidade, e esta sempre foi explicada pela suposta simplicidade das regras. Ou seja, a regra não muda porque é popular, e é popular por simplicidade, e por ser simples não necessita de mudanças. Belo círculo, não? Mas o problemas com os círculos é que quando se corre seguindo sua margem, e no futebol corre-se muito, acaba-se com "tonteira".

Daí que, primeiro, as regras do futebol sofreram modificações (uma grande e várias pequenas) e, segundo, a tal simplicidade é miragem: o enunciado que descreve pode ser em linguagem simples, mas o assunto a que se refere não é. Pois não se refere apenas ao ato praticado, mas á história desse ato, sua origem e conseqüências: por que um jogador pode fazer algo (usar as mãos) que ninguém mais pode fazer? Dizer que alguém pode, que está autorizado, a fazer algo é fácil, o enunciado é simples, mas dizer porque esse algo pode ser feito é que é a questão. Dizer que o goleiro pode usar as mãos simplesmente porque era assim no início, e é assim que é e continuará a ser, é paródia rasteira com metafísica importante, além de preguiça intelectual que pode levar até mesmo a afirmar que a regra provém do Verbo...

A regra em sua dita "simplicidade" guarda semelhança com a Constituição dos Estados Unidos: em ser compilação de princípios fundamentais a serem interpretados a cada mudança de tempo histórico (a cada geração); porém, não há no futebol um pilar de independência e sabedoria para dirimir as dúvidas últimas como a Suprema Corte americana. Dessa forma, o princípio fundamental só pode recorrer a si mesmo na forma de letra da lei a não ser interpretada e sim apenas obedecida. Sua simplicidade é seu orgulho, seu pecado. Era o que aquele tempo pedia, pois o jogo também era simples: apenas uma ferramenta de reafirmação de caráter (não de formação: este já estava formado, ou, do contrário, não se estaria estudando em Cambridge).

A grande mudança do futebol foi feita no momento mais importante de sua história. Em 1925 o IFAB tomou a decisão de alterar a regra do impedimento: reduzir de três para dois, exceto o goleiro, o número de jogadores necessários entre o jogador que recebesse a bola e a linha de fundo. O momento histórico é importante pois: a) precede exatamente a primeira Copa do Mundo, o evento com o qual a FIFA cria seu poder (e se o "sucesso" desta primeira vez nem de longe se parece com o presente, devemos lembrar que a execução de tão ambiciosa idéia – inclusive rejeitada pelos inventores/codificadores do futebol – já foi um sucesso); b) a briga entre profissionais e amadores começa a pender para o lado daqueles e a se espalhar pelo mundo; e c) coincide exatamente com a chegada de Herbert Chapman ao Arsenal e a implantação do WM (é desnecessário enfatizar a importância desse amadurecimento, dessa saída da infância).

O impacto da mudança é assombroso: nas temporadas seguintes a média subiu de 2,54 para 3,44 gols por jogo (temporadas inglesas de 24/25 e 25/26, pré e pós alteração).

Evolução tática, aumento da quantidade de gols e um evento de caráter mundial. Melhoria de si mesmo, beleza e popularidade. Haveria momento melhor?

Porém, em 1925, houve realmente uma mudança ou apenas um reajuste? Perceberam os carcereiros da regra que o jogo já estava modificado a ponto de o próprio jogo não recusar o reajuste? Pensaram que os belos resultados das temporadas seguintes deveram-se exclusivamente à sua sagacidade e percepção acurada das "necessidades" do futebol? Poderiam ter-se colocado à frente, quando, na verdade, apenas corriam desesperadamente atrás de seu filho fujão? Não perceberam o marco definidor de um antes e um depois? Um antes feito de ludicidade baseada no ser "bom", um depois competitivo e de ludicidade baseada em ser vencedor. O futebol amadurecera, as regras não mais serviam. Ninguém viu.

Assim, a regra 11 só mudará novamente em 1990; antes disso apenas pequenos ajustes de enunciados. O momento passou. A atenção foi desviada. O lúdico se perdeu definitivamente.

Diz uma anedota que é mais fácil ensinar a um símio a Teoria da Relatividade que a regra 11 (off-side, impedimento) a uma mulher. A piada repete preconceitos clássicos, mas como este não é o tema aqui, simplesmente basta substituir "mulher" por "pessoa que não gosta ou finge indiferença pelo futebol" e podemos prosseguir compreendendo que a regra é fácil de ser explicada, mas o que a "mulher" quer realmente saber é por que existe tal regra, qual a sua origem, qual o seu significado, quais as conseqüências da sua implantação e, principalmente, o que aconteceria se deixasse de ser aplicada? Da mesma forma que quando um humano diz seu nome ele está falando muito mais do que um conjunto de sons, uma regra futebolística tem toda uma história compactada, toda aconchegada de significados.

Não é por não gostarem de futebol que as "mulheres" não entendem a regra 11: o entendimento que se quer é muito mais amplo. E isso nunca é simples, como nenhuma regra jamais foi, nem jamais será. O simples no lugar do inteligível. Coisa no lugar de coisa. Metáfora.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h08
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INTRO

O futebol como o vemos hoje é um gosto adquirido: ensinaram-nos que é uma continuidade; e por não vermos (falta de tempo, recursos ou registros precisos) o que foi no passado acreditamos que sempre foi assim: feio, demasiado feio. Assim, por não termos tido oportunidade de vê-lo bonito, acreditamos que sempre foi tão assustador. De moderno o chamamos, quando nada mais é do que um aleijão estropiado e espoliado de quase toda a ludicidade primeva que o tornou apaixonante.

O hoje é uma meia-verdade (que é também uma meia-mentira), assim como dizer que "futebol é para/coisa de homens".

Muitos se referem ao futebol como "metáfora da vida", algo como "a arte imita a vida" e coisas assim. Mas isto somente se a vida for entendida como conjunto das atividades que o humano realiza no mundo exterior, e então tudo seria metáfora do humano, pois é este que realizaria a vida. A vida, assim entendida (e o futebol, que é parte dela), seria metáfora do humano.

Contudo já é sabido que o externo nada pode ser sem um interno que o nomeie e signifique, que pesquise suas origens e conceda-lhe uma finalidade. E é nesse interno que está o intelecto e tudo quanto dele deriva e que se pode dar o nome de intelectualidade. Assim, vida não existe sem um interno a agir no externo.

É neste interno que estão as metáforas originais a partir das quais todas as demais se escoram: as idéias, as coisas no lugar das coisas. Juntando idéias forma-se conceitos, assim como crianças juntam peças de um jogo de armar e à reunião delas dão um nome diferente por saberem que numa junção de coisas há diferença para cada peça isolada. É nestas aglutinações, justaposições, condensações e deslocamentos que as metáforas pululam. Como o interno só pode "existir" no externo através do ato, o futebol, essa coleção de atos pode prescindir do interno?

Mas, fenomenologias e fenomenismos à parte (este não é assunto aqui), sabendo que a "vida" não pode prescindir de uma "intelectualidade", é de se perguntar como pode ser metáfora da vida uma atividade humana (metáfora do si-mesmo, pois ação no mundo) na qual muitos dos realizadores/observadores dizem não haver espaço para intelectuais? Como pode ser "metáfora da vida" algo que parece muito desgostar do interno? De outra forma: se é mesmo metáfora da vida a excluir o pensamento, então a vida não existe; ou, bem mais simples, essa exclusão nada é além de preconceito; porque, dizem, intelectuais gostam de achar pêlos em ovos, contudo que há de se fazer se nada autoriza a pensar que não possa haver pêlos em ovos? (Sim, "pêlo em ovo" é também uma metáfora).

A impressão de que futebol é "metáfora da vida" nasce talvez porque, sendo realizado por humanos, tudo quanto se pode ver são humanidades, as expressões do humano; assim é "metáfora da vida" tanto quanto qualquer outra criação humana: uma grande expressividade, mas não uma necessária expressão grandiosa. É parte (e muito importante para nós, brasileiros), não é todo.

É possível, também, pensá-lo em uma metáfora tão pomposa pela trilha das sempre muito fáceis analogias eróticas-sexuais: a entrada da bola na meta como "penetração", o gol como "orgasmo" (embora ninguém pense – ou goste de pensar – que com tanta gente em campo o futebol estaria mais para uma orgia do que para uma relação sexual adulta adequada aos moldes sócio-culturais contemporâneos...).

Embora um psicanalista possa dizer que é justamente o contrário: por ser simbólico essencialmente erótico é que é possível racionalizá-lo como "vida" (reprodução). Porém, o mesmo psicanalista há de reconhecer que, no mínimo, a vida sempre anda de mãos dadas com seu oposto (as ambivalências do Édipo bem o mostram).

Amor e ódio. O "ato de amor" (ser campeão, ver o time ser campeão, ser "campeão" por ver o time campeão) só é possível através de um "ato de ódio" (vencer o adversário, ver o time adversário perder, ver o outro como perdedor porque o time dele perdeu). Não é "dialética": é a realidade (e classificar um e outro – ato, jogador e torcedor – como maior/menor, melhor/pior, certo/errado é empreender juízos de valor ético-morais – não que possamos prescindir deles, é claro – mas na psicologia ambos são iguais: exigem e gastam a mesma energia). Talvez então, metáfora de vida e metáfora de guerra (morte) sejam indissolúveis.

Realmente não seria impossível tal ambigüidade... caso se tratasse de um indivíduo, de uma única cabeça (área em que a Psicanálise mostra força em suas argumentações). Mas trata-se de muitas cabeças reunidas, caso este em que transposições muito diretas entre o particular e o geral, individual e coletivo, psicológico e social, latente e manifesto, não podem ser feitas muito despreocupadamente.

De nossa parte, cremos que o futebol, por suas origens muito bárbaras, diga mais a respeito daquilo que não gostamos muito de ver (embora secretamente gostemos muito de fazer).

Mas não é fácil falar de futebol: o preconceito daqueles que pertencem ao "mundo do futebol" é baseado em duas premissas: a) o futebol é simples, mas tão simples, que "intelectuais" não podem compreendê-lo, incapazes que são de apreender essa "simplicidade"; e b) o futebol é um "mundo à parte", no qual a intelectualidade, mais do que não ser bem-vinda, é inútil pois seus instrumentos de análise não são adequados a esse "mundo". E se alguém pensar que nestes argumentos está presente a antiga e errônea idéia de oposição entre razão e paixão, pensou certo. Errônea pois como poderiam ser opostas coisas que só podem existir no mesmo sujeito que as nomeia? Como se pode conceber a existência de um "mundo à parte do mundo" que ouse falar do humano sem usar aquilo que o humano já disse de si mesmo (o que, óbvio, inviabiliza de antemão tudo que ainda há por dizer)?

É preciso olhar o futebol de dentro e não apenas com novos olhos. Não é que muitos saberes objetivos não o tenham olhado, mas é que o fazem de fora, de longe, com até mesmo um certo asco, com uma certa desconfiança, que não é aquela ao se lidar com significantes (coisa a decifrar), mas aquela desdenhosa que acha tal tempo um tempo muito mal gasto. Mas este de dentro não é o rasteiro das quatro linhas (ser/ter sido alguém que pisa/pisou o gramado), mas de dentro do coração, dentro deste gosto grande que está dentro de todos nós, e sem ser engolfado por ele.

O futebol não é um simbólico (apenas um meio de expressão) da brasilidade. Ao contrário, se encontramos no futebol sintomas de uma "brasilidade" é porque entre os dois há a relação profunda e inalienável entre a parte e o todo. Assim, o futebol seria uma figura de linguagem, mas não um sinônimo, e podendo até ser usado como metáfora de brasilidade, mas sem jamais esquecer que é um dos substantivos que a compõem. Ser um simbólico não parece suficiente para explicar porque uma metáfora guerreira anglo-saxã tornou-se um fenômeno capaz de unificar um povo (nem que só a cada quatro anos...). A não ser que o "simbólico" só possa existir por ser parte mesmo daquilo que representar; é desse modo que o "simbólico" torna-se válido, pois se o uso da palavra for para apenas nomear uma coisa no lugar de outra, sem guardar qualquer ligação com a coisa substituída, então a palavra deverá ser outra.

E, neste caso, para nós brasileiros, a relação é muito mais profunda que uma representação, um retrato, um registro, um significado. Somos nós mesmos falando muito alto e de muito fundo em uma língua a ser compreendida.

Escrito por Gildo Staquicini Jr. às 10h03
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JARDIM CIDALIA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Música, procurando emprego

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