A ESMOLA
Quando pensamos que nada mais pode nos surpreender no futebol...
O Campeonato Fluminense de 2008 é um excepcional exemplo de prostituição. Provavelmente um dos melhores de todos os tempos.
Já é muito bem sabido que o comércio do sexo nunca foi – nem nunca será - uma questão estritamente redutível à fraqueza moral de uma época, nação, sociedade ou indivíduo, pois é uma da maiores democracias de todos os tempos: épocas, nações, sociedades e indivíduos ricos e pobres já a experimentaram de ambos os lados da transação comercial.
Mas, há algo que permanece para além de uma simplificação erótica (o suposto oculto desejo por exercícios sexuais variados e/ou extensos por parte daquele que "vende" – não que, obviamente, este também não seja um componente da dialética) e de um reducionismo sociológico (a tão famosa "luta de classes" - não que, obviamente, este também não seja um componente da dialética): é o desejo irreprimível daquele que "compra".
Este irreprimível desejo acaba, então, impondo uma lógica explicação: o vendedor "concordou" com a venda. Este sarcasmo parece explicar tudo, mas, olhando bem, mostra apenas o comprador justificando – para si mesmo, mais que para o mundo - seu irreprimível desejo: o fim do círculo é sempre seu começo.
Assim, o fato de termos um pão duro e bolorento nas mãos, e que será muito bem aceito pelo faminto humano que vende seu corpo pelas esquinas, pois a fome que lhe carcome as entranhas o aproxima cada vez mais do temor da morte, não nos faz caridosos, apenas mostra como bem sabemos abusar das necessidades – quaisquer que sejam - dos outros para satisfazer as nossas próprias.
Os "pequenos" – do interior do Estado do Rio de Janeiro e da periferia da Grande Rio – estão com fome e por isso aceitam que os "grandes" – e esta palavra está se tornando cada vez mais irônica – façam os jogos, que não sejam de seu "mando", no Maracanã. Ou seja, além da tradicional troca de favores políticos entre os votantes e o presidente eleito da Federação, há a possibilidade dos "pequenos" obterem rendas melhores. Mas, é uma falsa "caridade": a história do futebol já mostrou suficientemente o valor do fator "campo". Assim, a médio prazo, a vantagem é toda dos "grandes", pois jogando sempre em seu "campo" as chances de título aumentam, ou, ao menos, não se corre o risco, como nos últimas edições, de ter um "pequeno" decidindo o título (coisa que os departamentos de publicidade das tevês detestam: time pequeno não tem torcida que dê audiência suficiente para justificar o alto preço cobrado dos anunciantes). Não há associação indevida: time/clube que ganha títulos consegue negociar melhores contratos de patrocínio.
Um humano com fome poderá, ou não, vender sua alma. Mas, mesmo que este humano esteja muito disposto à venda, não há justificativa suficiente para comprá-la, já que ao fazermos isso entramos, sem possibilidade de remissão, no terreno acre do abuso: o humano explorando o humano.
O fato do Flamengo – a maior torcida do país – fazer todos os seus jogos no Maracanã é significativo: a cidade do Rio de Janeiro estará sempre em festa. Esta constatação político-econômica apenas mostra a extensão do abuso que é o de manter as coisas no lugar, que é aquele ocupado pelos "grandes": nenhum clube do interior – ou periferia - jamais ganhou o Campeonato do Estado do Rio de Janeiro desde a unificação em 1979; anteriormente só Bangu, em 66, e América, em 60; um tempo longo demais.
Abuso da fome para privilegiar os que sempre tiveram privilégios: isto é verdadeiramente uma relação econômico-financeira (lei da oferta-e-procura, acumulação de riqueza e luta de classes); mas o fato de um produto estar à venda a preço barato não obriga ninguém, mesmo aquele que tenha amplitude e sobra de recursos, a comprá-lo. Ao contrário, a compra será sempre uma escolha do comprador, que deve responder por tal ato.
Perante o "tribunal da História"?
Bem, talvez nada tão grandioso assim...
Mas, de qualquer forma, há um tribunal: somos nós, os pares humanos, que não podemos aceitar tais abusos (e isto está para além de qualquer religiosidade, arte, ciência ou filosofia: é humanismo). Nem que seja por precaução: em um triste dia, cada um de nós, talvez todos nós, poderá estar numa esquina com muita fome... (mas, neste e somente neste caso: precaução demais é tão perigosa quanto arrogância infinita).
Por fim, o futuro: o que os "grandes" inventarão quando os pequenos fluminenses superarem mais esta dificuldade, quando expuserem mais uma vez sua capacidade de adaptação e sobrevivência diante da oligarquia carioca? Algo "genial" como "os grandes começam o campeonato com 3, 4 – talvez até 6 – pontos de vantagem" simplesmente porque são grandes? Não é nada impossível que os incompetentes utilizem tal estratégia de sobrevivência.
Nos anos 40/50/60 do séc. XX, tais práticas seriam correlatas (ou talvez limpa expressão) a uma figura sócio-política muito nossa conhecida: o coronelismo. Mas, em pleno séc. XXI, é sinal claro de desespero diante da perda crescente de espaço.
E, se não bastasse o horror de nos reconhecermos em tão distorcido espelho, ainda há um pior.
Há um monte de jornalistas/analistas que se arvoram nos mais diversos "socialismos" (desde a lustrosa louvação do homem que vem das classes baixas e não se "subordina aos ditames do poder constituído", até a glorificação de regimes políticos ditatoriais suportados na propaganda mentirosa da "melhoria das condições de vida do povo") que concordam – pois nada dizem contra esse modelo continuísta – com tais abusos. E por que concordam sendo omissos? Simplesmente porque são torcedores dos "grandes", portanto, com a visão nublada pela paixão clubista: também querem, mesmo que secretamente, sentir a alegria do título. Ou seja, mudança só aquela que não ameace o lugar privilegiado do "grande". Pois "socialismo" não é só igualar, em posses econômico-financeiras, os pequenos aos grandes, mas, sobretudo, não aceitar tão facilmente que os grandes explorem os pequenos.
Aqueles dos quais poderíamos esperar alguma luz apenas nos acenam com a mais antiga das trevas: tudo como era antes na mais perfeita ignorância de um presente que idolatra o passado morto.
Aristocracia.
É de chorar. Mesmo.
Não é à-toa que tem sido chamado de Cariocão-08.
Segundo os dicionários/gramáticas, carioca é adjetivo pátrio relativo exclusivamente à cidade do Rio de Janeiro, sendo que, quando a relação se dá com o Estado do Rio de Janeiro, o termo correto é fluminense (ao menos, ainda por hoje). Pode ser fenômeno muito simples: ampliação do sentido da palavra, procedimento que o senhor da língua, o povo, faz corriqueiramente e os dicionários/gramáticas são sempre os últimos a saber. Ou muito mais complexo: o campeonato é, verdadeiramente, carioca e mais nada. Um torneio no qual os "de fora" só podem participar como sacos de pancada e fornecedores de pontos aos "de dentro". Não que alguns dos pequenos não sejam, por sua "pequenez", sacos de pancada, mas, inscrever essa eventual condição na letra da lei (o regulamento) é impedir qualquer possibilidade de mudança nas pancadarias ao saco.
Porém, de forma alguma, tal mentalidade de manutenção das coisas no seu "devido lugar" – e com os conseqüentes privilégios aos já naturalmente privilegiados, pode ser vista como uma exclusividade do Cariocão-08. A prostituição se diferencia apenas em grau, em quantidade, nunca em gênero, em qualidade: o Paulistão-08 não permite aos pequenos que exerçam seu direito de mando de jogo nas semifinais e finais. Ou seja, na hora mais importante a mão do monstro se revela.
É verdade que muitos dos pequenos "de fora" jamais se tornarão grandes "de dentro", mas, disfarçar na esmola o desejo de jamais ajudá-los é de doer.
É de chorar.
Mesmo.




Leia este blog no seu celular