PRÁ COMEÇAR

Se você não tem interesse por histórias em quadrinhos (HQ) nem continue a ler. Vá fazer qualquer outra coisa que ache mais útil (para você, é claro). Mas, se você gosta, arrisque-se. E, se está pensando em gostar, arrisque-se também.

Vanderlei Luxembrugo batendo boca com Emerson Leão é discussão feroz? Acha mesmo? Dá só uma olhadela nesta discussão aqui. É sobre poesia. Não é recente. Mas, os caras pegam pesado!

Alexei Bueno é um grande poeta? Poeta ele é, não há dúvida. Grande?... Alguns dizem que sim, outros que não.

E que diabos isto tem a ver com histórias em quadrinhos, você pergunta. Bom, a questão (simplificando) é que existem poesias e "poesias". Quer dizer, poesia não é uma criação que receba de imediato, no ato de sua execução, um certificado de "boa". Depende (por mais que os teóricos da matéria não gostem de admitir) do tempo. É o futuro que vai dizer, não só se é grande ou pequena, mas se é poesia.

E que diabos isto tem a ver com histórias em quadrinhos, você pergunta de novo (já meio irritado).

Bom, vamos lá: a questão é que (igual com a poesia) existem histórias em quadrinhos e "histórias em quadrinhos". O tempo mostrou que realmente algumas eram melhores que outras.

Já leu a "Balada do Mar Salgado" de Hugo Pratt? Foi publicada no Brasil, muitos anos atrás, pela LP&M (não sei se ainda está em catálogo, mas, é possível achá-la em algum sebo).

Só para dar uma idéia (prá você que é fanzoca de carteirinha de Frank Miller): sabe no "Cavaleiro das Trevas" quando lançam um míssil atômico sobre um paizeco  e o Super-Homem faz todo aquele malabarismo para impedir ã detonação das ogivas? Prestou atenção no nome do país? É "Corto Maltese". E este é o nome do personagem principal da "Balada do Mar Salgado"... Se o "mestre" Miller resolveu homenagear o velho Pratt, é porque alguma coisa deve ter aí, não? (Aliás, acho que Neil Gaiman faz uma referência também em algum lugar do Sandman... - preciso verificar isso).

 Mas, vou logo avisando: se você é fanzoca de Miller (e, de certo modo, da temática "heróica" dos quadrinhos americanos) a viagem não vai ser fácil. Primeiro, o livro é todo em preto-e-branco. Segundo, o personagem principal não controla/coordena todas as ações da história: nem tudo gira em torno dele, embora sem ele a história não poderia exisitr. Entendeu? È mais ou menos como a vida.

É claro que você não encontrará a densidade (HQ não é literatura) de um Joseph Conrad ("Lord Jim" e "O coração das trevas"), mas há aquele sabor de aventura na qual não se sabe muito bem qual será o final, mais ou menos como Robert L. Stevenson ("A ilha do tesouro"), Jack London ("Caninos brancos") e Herman Melville ("Moby Dick"). Mais ou menos como a vida.

Justamente por nunca aproximar o personagem Corto Maltese (pelo menos, nesta primeira aparição) do heroí cinematográfico infalível e de previsível final feliz, Pratt o torna humano. Afirmei, logo acima, que HQ não é literatura, mas se houve algum momento, apenas um que tenha sido, onde a distância diminuiu a ponto das duas poderem se divisar entre as brumas da arte, então, foi neste trabalho de Pratt.

Só isso.

Quer mais?

Vá falar com Pratt e com o Corto na balada do mar salgado.