OL’ FELLA BLUES
quando for velho (bem mais) e feio (muito mais),
quando ninguém além de mim sentir pena de mim,
a Fortuna generosa abrirá sorriso, pernas e braços
e ganharei uma bela fortuna numa dessas loterias.
jovem linda (é o que acho que acharei) e gostosa
dona de longos cabelos negros, lisos, cheirosos,
tomarei como esposa e companheira carinhosa,
"porque fizeste sultão de mim, ó alegre menina".
poemas pregados nos postes e bares da cidade
nos atalhos da luz do sol é que te encontrarei
dirá que sem mim não vive, sou seu bem-querer,
ajudará na escolha das roupas, pratos e lugares
dominará boca e carteira, chamará de bom-bom
e papai, mas... muito dinheiro... não reclamarei
cópula de manhã, tarde e noite (se eu agüentar)
e se eu não agüentar, sem reclamação esperará,
conversaremos sobre tudo que eu bem entender,
ela, generosa, me iludirá no esforço de entender
poemas pregados nos postes e bares da cidade
nos atalhos da luz do sol é que te encontrarei
e, velho, de bermudas e camisetas, aposentado
pensarão quando sentado na escadaria de casa,
um são-bernardo aos pés, barba e cabelo branco,
acariciando-o ou acariciado pela sua presença.
E olharão se perguntando se devem ter pena
e eu, que sou muito rico e de mulher bonita,
nada direi, deixarei pensando o que querem
enquanto relembro os odores restritos só meus
poemas pregados nos postes e bares da cidade
nos atalhos da luz do sol é que te encontrarei
e quando morrer, a fortuna será todinha dela,
pois serviu bem até o final, dizendo que gosta,
pois não traiu ou roubou, cumpriu o contrato
desse muito particular arremedo de felicidade.
E, ao me dar, o que não deu, de menina, a ninguém,
me dará o que ninguém mais me deu de bom grado
e nos vendo juntos, certo dirão que foi golpe do baú
mas não me importo se comprei uma realidade blue.
poemas pregados nos postes e bares da cidade
nos atalhos da luz do sol é que te encontrarei
Serei dela um escorpião-rei e dragão de fogo
ela engolirá, mesmo que morno, não cuspirá
e gostará de sexo, e por essa grande raridade,
a desejarei de manhã e noite, de cima abaixo
Dirá que faz todas as coisas e muitas coisas fará,
a farejarei como cão, dinheiro e tudo permitirá
noites inteiras de uma única e fácil semana
desavergonhada de mútuos bem-quereres
poemas pregados nos postes e bares da cidade
nos atalhos da luz do sol é que te encontrarei
e quando eu morrer e estiver no caixão
mais bonito do que qualquer dia estive
(o agente funerário é bom no que faz)
chorando dirá que fui a grande paixão
orquídeas nas árvores, azáleas nos caminhos
eucaliptos à mão-cheia, um cemitério florido
(nem todos podem entrar: é lugar restrito)
este é o destino de todo sonho de menino.
Caminho restrito, florido menino:
poemas pregados nos atalhos da luz do sol